segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

“Sempre fui inconformado com o estigma de que brasileiro não gosta de ler”

Laé de Souza, sustentado pela experiência de seus mais de 12 projetos de leitura, debate a questão da formação dos leitores no Brasil
Maio/2008 
  Há mais de dez anos envolvido com projetos de leitura, que se espalharam por todo o Brasil, o baiano de Jequié, de 56 anos, além de formado em Administração e bacharelado em Direito, é teatrólogo, poeta e, sobretudo, cronista. Transformando a sociedade pela construção e realização do processo de formação de bons leitores, através de seus seis livros e de uma iniciativa exemplar, Laé dá novo significado a vida de crianças, adolescentes, jovens e adultos, apresentando-lhes o maravilhoso mundo da leitura.


Mariana - O senhor tem muitos projetos que vão além das escolas. Quais são os outros focos?
Laé de Souza: Hoje nós estamos com 12 projetos de leitura, eles funcionam em hospitais, escolas, parques, praças e no transporte coletivo.

Mariana - Os projetos envolvem a distribuição de exemplares gratuitamente ou a preços simbólicos. De onde vem a verba que possibilita esta iniciativa?
Laé de Souza: Eu tenho colaboração de vários patrocinadores e do Ministério da Cultura, que os aprova pela Lei Rouanet. Além disso, hoje, há uma carteira de 200 pessoas físicas que também ajudam. Eu faço a captação dos recursos vindos das pessoas e instituições, que em troca têm abatimento no Imposto de Renda. Nós trabalhamos com projetos pilotos que nos auxiliam na busca por patrocinadores, quando vamos apresentar a proposta, já temos um resultado daquele projeto, o que gera uma confiança. Quem está investindo quer saber que vai ter um retorno. Se tiver um patrocinador, eu inicio com recurso vindo dele, se não tiver, eu costumo colocar verba antes, vinda, por exemplo, de alguma venda de livros que nós tenhamos feito para escolas e a canalizo para o projeto piloto.

Mariana - Conte-me um pouquinho do senhor e o porquê da escolha de trabalhar com a questão da leitura.

Laé de Souza: Eu cuido da parte de coordenação e há uma equipe que cuida da parte da realização, porque à medida que vai aumentando o número de projetos, fica mais difícil fazer tudo.  Eu também tenho atividade de auditoria paralelamente aos projetos e todo recurso que entra é empregado dentro deles também.
Eu sempre fui inconformado com o estigma de que brasileiro não gosta de ler, acho que isso não é muito verdadeiro, queria levar uma oportunidade para as pessoas. Antes de ter livros e projetos por aí afora, eu fazia teatro e através dele eu já levava essa questão para a sociedade. Comecei como escritor fazendo um projeto piloto na escola e vi o interesse do aluno pela leitura, pela discussão de texto. Então, eu percebi que nós estávamos colocando a leitura de forma errada nas escolas, e a partir daí surgiu o “Encontro com o Escritor”, que cresceu tanto que já não tínhamos condições de atender a todas as escolas com palestras. Hoje eu me limito a dez por ano, pois agora são mais de 600 escolas participantes. Depois começaram a surgir novos projetos que não necessitavam da minha presença, o que possibilitou ampliar o número de escolas atendidas, o “Ler é Bom, Experimente!”, por exemplo, trabalha com cerca de mil escolas. Começamos a perceber que íamos ao local aplicar um projeto e que os alunos de outras classes também queriam participar, porque aqueles que estavam lendo, discutindo o texto, acabavam levando isso para os outros colegas e acabava surgindo um interesse pela leitura. Dentro de toda essa experiência de mais de dez anos fazendo projeto, percebemos que o fato demonstra que, na verdade, nós não trabalhamos bem a leitura e o tipo do texto que se coloca nas escolas, tudo isso é empecilho ao desenvolvimento. Então, essa é a idéia e, assim, começaram a surgir projetos que foram abrindo outros espaços. Aonde eu vejo que há possibilidade de se colocar a leitura, então, aí vão nascendo novos projetos.

 Aonde eu vejo que há possibilidade de se colocar a leitura, então, aí vão nascendo novos projetos”

Mariana - Extremamente ligada à formação de leitores está a questão do analfabetismo no Brasil, assim como a do analfabetismo funcional. Como o senhor analisa a situação?
Laé de Souza - Há uma parcela muito grande da população sofrendo com analfabetismo, é impressionante o número de pessoas.  Agora, nós temos um projeto que chama “Caravana da Leitura” que faz a venda de livros em praça pública a um real. Nós vendemos em média dois mil livros num dia. Então, não pode ser verdade que não gostam de ler. Estamos abrindo uma grande possibilidade, pois o valor do livro também é um grande empecilho, além de não haver a cultura de busca, o livro é um produto caro. Eu estou formando leitores, pessoas interessadas, mas não vou me sentir culpado se essa pessoa falar: “Puxa, eu gostei da experiência, mas eu não vou poder ler porque eu não posso pagar”. A idéia é criar esse movimento para que o leitor também questione e fale: “Olha, eu preciso de bibliotecas no meu município, bibliotecas boas. Eu quero ler”.
É um problema que se remete sempre à questão do professor não ter a preocupação de selecionar bem a obra para colocar na mão desse primeiro leitor. Não podemos iniciar com uma obra mais complexa o processo de leitura. É importantíssimo escolher com cuidado a obra, pegar um texto dentro de um ambiente conhecido desse leitor para criar uma facilidade, a vontade de ler. Colocando-se uma obra complexa é criada uma barreira, um afastamento da leitura. Já vi alunos respondendo nos questionários: “A leitura não é tão ruim assim”, “Puxa, a leitura é tão gostosa...”, “Eu não pensei que fosse tão bom ler”. Estamos propondo uma compreensão e uma linguagem adequada, não adianta colocar uma linguagem complexa que faz com que a toda hora o aluno tenha dúvida.
  Outra questão é a falta de criar um grupo de discussão do texto. Através das atividades que sugerimos nas escolas, o professor a partir de um texto, faz com que o aluno o adapte a um teatro, por exemplo, vivendo um personagem. Assim, ele vai fazer um exercício grande de compreensão. À medida que fizermos isso mais vezes, esse aluno vai compreender muito melhor o texto quando ele fizer uma leitura.

 “Eu não pensei que fosse tão bom ler”

Mariana -  Tendo em vista a questão do déficit que existe no ensino básico na rede pública, atualmente, como podemos pensar na formação de bons leitores?
Laé de Souza -  Realmente, é preciso remodelar tudo. Primeiramente é preciso que os professores sejam leitores. O projeto é colocado de forma facultativa na escola. Nós mandamos a proposta para que os envolvidos conheçam o projeto, vejam qual a nossa idéia, e se quiserem participar, confirmem. É preciso fazer um trabalho também com os professores para que haja a adesão e o interesse pela leitura. O fato justifica estarmos com 50% de sucesso com o projeto aplicado na escola, porque é um professor que quer, diferente de se fazer de forma obrigatória. Não adianta combinar com o diretor da escola a implementação do projeto, pois se o professor não abraçar aquela iniciativa, não vai se envolver na discussão. Como ele vai induzir outras pessoas a gostarem de fazer aquilo que ele mesmo não gosta, que ele não sente prazer em fazer? Então prefiro trabalhar com essas pessoas para que elas percebam isso. É interessante, eu vejo professores até de outras matérias, de matemática, por exemplo, envolvidos com o projeto. Isso é bacana porque a leitura não é só um problema de Português, mas de todas as outras disciplinas, principalmente hoje, que os pais ficam mais fora, trabalhando, antes os pais contavam estórias para os filhos, hoje não têm tempo para isso. Quando o professor é um bom leitor há um envolvimento muito maior da sua parte, fazendo com que os alunos também se envolvam no projeto de leitura. É necessário trabalhar com mais amor, gostar daquilo que se faz.

“Como o professor vai induzir outras pessoas a gostarem de fazer aquilo que ele mesmo não gosta?”

Mariana -  Para o senhor, então, não se justifica a afirmação de que o brasileiro não gosta de ler?
Laé de Souza - Exato, eu realmente não acredito, eu acho que nós colocamos a leitura de forma inadequada. A minha experiência dentro da classe e nas palestras me permitiu presenciar alunos se levantarem e falarem: “Eu sou um testemunho de que eu não gostava de ler, eu não queria e a professora me convenceu a ler pelo menos um texto e eu li, li todo o livro e quero ler todos os outros”. Podemos dizer que não é que essas pessoas não gostavam de ler, na verdade não conheciam a leitura, não por prazer. Essa experiência que temos em todos esses projetos nos mostra que há possibilidade de formarmos leitores, sim. Na verdade, não é que o brasileiro não gosta de ler, muitas vezes não formamos leitores por prazer, mas por obrigação, a proposta é errada e a nossa intenção é fazê-los ler como um lazer. Nós não pedimos que o professor atribua nota, mas que deixe o aluno livre para levar o livro pra casa, se familiarizar com ele, possibilitar que o irmão, o pai, a mãe leiam também.
O exercício do professor é fazer com que os alunos se envolvam. Como no meu projeto “Leitura no Parque”, no qual conseguimos que as pessoas leiam, mesmo estando com o namorado, com amigos. É relevante, também, que os meus livros são compostos por crônicas, um tipo de leitura adequada ao contexto. São textos curtos, de modo que é possível convencer a pessoa a ler pelo menos um e depois a responsabilidade é do escritor de fazer um texto atraente que conduza o leitor a outras estórias.
“Não é que essas pessoas não gostavam de ler, na verdade não conheciam a leitura”
 Mariana - Qual é o papel da escola nessa questão de formar leitores?
Laé de Souza - Eu acho que a escola tem que aproveitar para deixar o aluno fazer uma leitura descompromissada, sem cobrança de resultado. Uma grande dificuldade que há na escola pública, também, e que nós conseguimos resolver no nosso projeto é que os alunos lêem livros diferentes, então fica complicado fazer um debate. Quando nós colocamos o mesmo livro para cada aluno que está participando, há possibilidade de discutir o tema.

“Não formamos leitores por prazer, mas por obrigação, a proposta é errada”

 Mariana - E o professor, qual a sua função?
Laé de Souza - O grande exercício quem tem que fazer é o professor,é uma grande ginástica, já que caímos sempre naquela questão de que nós temos que preparar bem o professor para que ele tenha o dinamismo necessário para conduzir esse trabalho na escola e o desenvolvimento do aluno, fazendo com que ele se torne leitor.

Mariana - O que o senhor tem a dizer a respeito da diferença discrepante existente entre as condições da rede pública e privada de ensino?
Laé de Souza - A proposta é não equiparar, mas, pelo menos, melhorar a condição desse leitor da rede pública.

Mariana - Qual a importância de se formar leitores críticos, diante do poder que exerce a imprensa na sociedade contemporânea, num contexto de globalização e instantaneidade na veiculação de tão grande quantidade de informações?

Laé de Souza - Eu acho que para compreender tudo o leitor precisa de uma base, ele está sendo inserido nesse meio complexo sem um preparo. Ele precisa, primeiro, traçar um processo de compreensão de tudo, para que ele tenha facilidade lá na frente. É importantíssima a literatura e o sonho na formação do indivíduo e a própria leitura e  discussão do texto,  para que ele entenda as informações. Muitas vezes este leitor não consegue compreender um texto curto. Então quando ele lê uma notícia, não consegue assimilar.

Mariana - Quando se fala em formar bons leitores, estamos pensando em leitores críticos. Afinal, embora, o senhor tenha muitos projetos, não pode resolver todas as questões.
Laé de Souza – Realmente não dá. Tenho um trabalho chamado “Minha Escola Lê”, um projeto de envolvimento de todos os alunos da escola, que cria um desenvolvimento literário e faz todo mundo discutir, fazendo atividade. Em outro, de nome “Minha Cidade Lê”,  os habitantes da cidade recebem um livro na sua casa, depois da leitura ele vai à biblioteca ou à alguns pontos trocar esse livro por outra obra, isso trabalha a leitura e incentiva o uso da biblioteca. Ele funcionou em Itaperaí, uma cidade de mais de oito mil habitantes. Temos vários trabalhos no interior, nesse, por exemplo, nós trabalhamos com 50 voluntários. Na madrugada, nós saímos percorrendo todas as casas e deixando um livro na porta com uma mensagem dizendo que depois da leitura os cidadãos devem ir à biblioteca para trocar aquele livro por outro. Houve bastante retorno, o projeto é bastante próspero neste lugar. A idéia é colocar a leitura e criar um processo de exigir do poder público a biblioteca no município.

Mariana - É, na verdade, um processo. Qual a importância de iniciativas como esta?
Laé de Souza - Eu acho que iniciativas como esta suprem uma deficiência do poder público e ao mesmo tempo exige dele algumas ações. Um caso interessante é o de um rapaz pescador, que vende peixe na feira. Ele fez do lado da sua banca uma banquinha para que os filhos dos outros pescadores ficassem lendo. Aí ela começou a crescer, até que a banca de livros dele ficou do tamanho da barraca de peixes. Até eu fiz uma doação, distribuímos gratuitamente 1,5 mil livros.

 Mariana - O senhor acha que falta interesse por parte do poder público?
Laé de Souza - Ás vezes não existe realmente aquele interesse da prefeitura, a leitura quase não tem verba, não se dá muita importância a isso. Verificamos em parcerias que nós temos feito com prefeituras, destinando o projeto para toda cidade, que desde o cartaz para divulgação, é colocada a logomarca da prefeitura, mas nós é que fazemos tudo. É impressionante nos projetos que fazemos, há o “apoio”, mas nós é que temos que fazer todo o trabalho para que dê certo, caso contrário, não tem condições. É um descaso muito grande, não recebemos verba para realizá-los. Por exemplo, nós vamos fazer uma distribuição de 1,5 mil livros num município, quando nós não temos patrocinadores, cobramos R$ 3 mil reais da prefeitura para fazer a distribuição. Esse valor para prefeitura não é nada, damos os livros, os cartazes, a equipe, toda a estrutura, porém, há dificuldade.
E isso ocorre em todos os estados. O prefeito de Jequié, na Bahia, é membro da Academia de Letras do município, inclusive, junto comigo, e eu não consigo levar o projeto para lá, pois não disponibilizam verba. É um descaso muito grande.
É um descaso muito grande, você não tem verba para realizar os projetos”
Mariana - Falta envolvimento dos professores e coordenadores, que lidam diretamente com a dificuldade dos seus alunos, no sentido de propor novas idéias para o desenvolvimento do futuro leitor?
Laé de Souza - Alguns professores são envolvidos e levam idéias. Implementando o “Ler é Bom” houve um momento em que eu não tive mais verba pra atender com doações a todas as escolas e nós passamos a vender no projeto “Lendo na Escola” os livros a três reais. Nós cobramos R$ 114,00 para que ele seja aplicado na escola. É só para tirar um pouco da despesa, pois pagamos transporte, correio, deixamos 38 livros, questionários, folhas, tudo por esse valor e às vezes tem escola que não tem verba para pagar. Eu já dei uma palestra em que o professor tirou dinheiro do bolso dele para poder pagar o transporte para eu ir até lá. É complicado, não é fácil.
Temos experiência com alguns patrocinadores e todo ano é aquela luta para convencê-los a continuar. Lucro não tem, é preciso conscientizar que a responsabilidade é de todo mundo, uma causa social.

 “Conscientizar que a responsabilidade é de todo mundo”

Mariana - De que maneira o processo de formação de bons leitores pode influenciar no delineamento da sociedade?
Laé de Souza - É preciso um movimento apontando a necessidade de propostas de formação de leitores. Estamos sentindo, embora ainda de forma acanhada, esse movimento. Os leitores observam melhor, questionam de maneira bem fundamentada e poderão mudar a história. Certamente que um povo bem formado será mais respeitado pelos seus dirigentes e esse povo saberá exigir melhor os seus direitos, e terão consciência da sua responsabilidade. A educação é o caminho para a formação de um cidadão consciente.
“Os leitores poderão mudar a história”

A educação é o caminho para a formação de um cidadão consciente”

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