segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Crônica: Invisibilização

Outubro/2010 
MARIANA CARDOSO

  Trajava roupas próprias para o calor desfrutado num clube, numa represa. Verde limão era a cor do top e dos shorts que vestia. As sandálias cor de rosa, nas quais os pés sobravam uns dois dedos para fora do calçado, contrastavam com a blusa feita de uma lã rala, bastante gasta e um pouco suja, velha, grande demais para seu corpo franzino. Sobrava nos braços finos e chegava até os joelhos, pois, quando sentada, Daniela puxava-a para proteger as pernas do clima que a castigava.  Era uma menina. Só uma menina.
  Retirada ao cantinho de um tipo de plataforma que separa um lance da escada do outro, a pele nem branca nem negra da garota não deixa esquecer a herança da desigualdade que anos de escravidão no país impuseram à população: 3, 2 milhões de pardos, na maioria pobre. A franja mal cortada, que dividia numa linha um tanto torta o meio da testa, dava uma amostra dos cabelos, que presos num rabo de cavalo, recaiam sobre as costas encurvadas. Era uma menina. Só uma menina.
  Ainda que estivesse diante de um retrato da realidade paulistana, era difícil digerir o abando estampado num rosto infantil. Ainda que centenas de pessoas olhassem para Daniela, não saiam de sua zona de conforto. Ainda que esteja previsto na Constituição Federal, nem o Estado, nem a comunidade, nem a família se responsabilizava por aquela criança. Ainda que vissem Daniela, do pedestal de seu egocentrismo, individualismo e mediocridade, não a enxergavam.
  Omissão, negação ou conformismo?
  Há palavra para nomear o ato de tornar invisível uma inconveniência?
  Toc toc toc toc. Subiam, desciam. Corriam em direção ao ônibus. Vvv vvv vvv vvv. O vento gélido de uma manhã de inverno cortava o rosto no terminal Rodoviário da Barra Funda. E a pequena caixinha, com um teco de papel mal colado com durex, que dizia R$1,00, e continha embalagens verdes com dez unidades cada, repousava no congelante chão de mármore, imundo mais pela sujeira do desprezo humano que pela poluição da megalópole.
  Deveria estar na escola. Que escola? Não há vagas! Nem instrução. Não deveria trabalhar. Acabou o gás. O pai não tem dinheiro. Os irmãos estão com fome. Madura. Aos 10 anos?
  Hã!
  Deveriam fiscalizar. Polícia? Insuficiente, ineficiente, corrupta, sobrecarregada. Sociedade? Insensível, indiferente, mal informada, apressada. Conselho Tutelar? Omisso, despreparado, desestruturado, só da ocupado...
  Dar de comer? Dar de vestir? Dar atenção? E o futuro?
  Denunciar? Conselho Tutelar... uma boa opção? Abrigo igual depósito de criança, abrigo igual esperança, abrigo igual paliativo, abrigo diferente de família. Abrigo igual solução?
  Unf... tá difícil!
  Família igual progenitora. Protetora? Família igual exploradora, agressora....
  Pior ainda quando a conta é multiplicada por 448. É, 448 Danielas. Isso mesmo, quase 7% da população de rua da cidade são crianças ou adolescentes. Ao todo, 2.400 abrigos Brasil afora. Resolve? E as 54 mil crianças sob medida protetiva em todo país?
  Estado incompetente, sociedade alienada, família desestruturada. Danielas e mais Danielas. Só Deus sabe. É, Deus é que sabe. Daniela, fica com Deus.



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