terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Lídia, o cansaço dos resultados frustrados

Agosto/2010
MARIANA CARDOSO 

Os olhos puxados, que denunciam a ascendência oriental, não conseguem esconder as olheiras acentuadas, roxas como duas fatias cortadas ao meio de uma beterraba bem escura. São vinte anos. O cabelo timidamente grisalho emoldura o rosto até o nível do queixo, a franja sobreposta às sobrancelhas bem feitas quase chega a alcançar os cílios, que abrem e fecham, abrem e fecham, abrem e fecham rapidamente numa tentativa frustrada de camuflar a emoção.
Mãe social, Lídia não gosta:
 – É muito competitivo!
Cuidadora também não retrata o que realmente faz, ou melhor, é:
– Parece que é só um cuidar físico...
Educadora, talvez. A risadinha tímida, de alguém que quer falar, mas teme se abrir, permeia a fala de uma entre cinco irmãos, que optou, logo após deixar de trabalhar no pequeno negócio da família, em viver num condomínio de casas, ao qual se dá o nome de Aldeias Infantis SOS. Correspondente à unidade Rio Bonito, de um programa originado na Áustria por Hermann Gmeiner, há 61 anos, localiza-se em Interlagos, zona sul de São Paulo. É um entre os 132 trabalhos espalhados pelo mundo, estando onze deles no Brasil.
O primeiro ano, reservado ao preparo técnico e prático da mãe social, antecedeu os próximos dezenove vividos na casa 11. A fala exageradamente mansa, em tom baixo, que projeta uma abertura pequena entre os lábios arredondados, delineando uma maçã alongada ao se movimentarem, realça a aura pesarosa dos olhos lacrimejantes de quem não, não... não sabe o que falta:
- É muito pouco! O tom de decepção, que paira na voz quase entalada, esclarece o real nível de eficácia das coisas na casa-lar.
Profissional. É como Lídia se define, talvez, como se doutrine. Envolvimento, impossível não ter com crianças e adolescentes de 10, 12, 13, 14, 15, 16 e 17 anos, porém, sabe que ali a situação é provisória – enfatiza. Tem ciência de que não é a Mãe dessa turma e que a casa está ainda distante de ser o que o próprio nome diz, pelo menos pensando-se no conceito socialmente construído e aceito pela sociedade no que se refere a lar.
– Fico em cima deles!
Também cuida, orienta, aconselha, oferece apoio. Explica que faz tudo o que está ao seu alcance, mas mantém certa distância.
- Se não for forte, a gente entra em depressão, adoece...
O circunspecto distanciamento emocional diante dos abrigados (que aqui não se reconhecem na condição de vulnerabilidade social) lhe permite enxergar algo errado na engrenagem, seus olhos lacrimados, porém, não enxergam a peça faltante, aumentando a agonia de não saber como convalescer os resultados:
- Eles não se esforçam, não querem nada. Se houvesse alguma coisa que pudesse mudar a cabecinha deles...
Nem mesmo as duas décadas de experiência puderam responder a questão angustiante que flagela dia-a-dia uma mulher de 55 anos, cuja história esbarra na de mais de 40 crianças e adolescentes que já passaram por sua casa, a de número 11. Em pensar que tudo começou com uma simplória reportagem de jornal (qual jornal?), que levou Lídia a procurar emprego no Aldeiais...
- O mais triste é quando os pais preferem vê-los aqui do que na própria casa e não fazem questão de que voltem! Ah...
Suspira.  A cabeça cai.
O olhar distante que mira em direção a respostas, procura um oásis em que a incógnita, que lhe rouba incessantemente a esperança, seja subitamente desvendada, como o resultado de uma operação matemática, ao qual se tem certeza de chegar.
No vão de suas palavras, a voz que sai sem força espelha a certeza de que há, sim, uma solução à indagação que lhe rasga o interior. Talvez não a encontre, talvez descubra que acolhimento familiar não é uma constante matemática, exata. Ao contrário, a prática não coincide com a teoria. Lídia conhece a lei, inequívoca, prevista nas Orientações Técnicas dos Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes, mas não consegue enxergar onde está a promoção dos estímulos à autonomia dos acolhidos, nem atitudes que favoreçam o fortalecimento dos vínculos familiares entre eles e as respectivas famílias de origem.
A voz embargada ao falar soa como uma negação da possibilidade de consolidação do que é proposto na lei e o que acontece debaixo dos seus olhos na casa-lar em que mantém os cômodos limpos, a sala, a cozinha e a rotina organizadas.
Mais uma vez a tímida risada, que impulsiona o rosto a se virar lateralmente, os pés a se encolherem puxados pelas pernas, e as mãos a se entrelaçarem, deixa transparecer a determinação, camuflada debaixo da timidez, de alguém que procura respostas.
– Se eles são abertos eu não sei - refere-se à instituição - mas eu sou. E trajando-se e seriedade na entonação, afirma categórica:
 - Quero encontrar caminhos que dêem mais resultado!

* Este texto corresponde ao capítulo 5 do livro-reportagem "Longe de Casa, a Urgente Realidade do Acolhimento Familiar e Institucional no Estado de São Paulo", um projeto experimental da disciplina Planejamento em Projetos (PLAPRO), do 4º ano de Jornalismo da USJT, desenvolvido durante o ano de 2010.

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