segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Rompendo correntes

A Capoeira que transforma alunos e professores, liberta da escravidão do século XXI

Novembro /2008
MARIANA CARDOSO

 
Arte genuinamente brasileira, foi desenvolvida durante o século XIX por africanos e seus descendentes, desde os porões dos navios negreiros até as senzalas e quilombos da época do Brasil colonial. Nascida para libertar, dois séculos depois, a Capoeira ainda estilhaça muitas correntes: a do medo, a do preconceito, a da limitação e, sobretudo, a da falta de conhecimento.
  Pode se apresentar como dança, luta, defesa pessoal, esporte ou arte. Trabalha muito mais do que a parte física, equilibra corpo e mente, proporcionando o desenvolvimento integral do praticante, que precisa saber que o respeito ao corpo começa com a vivência e experiência a que ele pode ser exposto. Portanto, conhecê-lo bem é fundamental para que seja possível investir nele e desfrutar dos resultados.
  “A Capoeira estimula o bem-estar físico e emocional, o esquema corporal, a disciplina e o autocontrole, além de aperfeiçoar todo processo fisiológico em razão de sua complexidade de movimentos, gestos e exercícios”, explica Ricardo, mais conhecido como Beija-Flor, de 30 anos, professor do Grupo Macungo de Capoeira.
  Com sua bagagem de 10 anos na Capoeira, ele desenvolve há cinco, um projeto que faz desta arte um esporte adaptado, promovendo qualidade de vida, e inclusão social. “A turma deve ser trabalhada de maneira homogênea, mesclamos os grupos para que o convívio ocorra de modo inclusivo, adaptando ao máximo as vivências de ensino”, diz Beija-Flor. É necessário estar atento as particularidades de cada aluno ao realizar as propostas de adaptação, mas, também, é fundamental que todos recebam o mesmo tratamento, tenha ele alguma deficiência ou não. “Os deficientes necessitam dos mesmos estímulos que todo o grupo para desenvolver os aspectos afetivo, social, motor e psicomotor”, explica o professor.
  Ivan Ollita, de 46 anos, portador da Síndrome de Down, já possui cordão verde e amarelo, a quarta graduação na Capoeira. Progrediu muito nos aspectos de lateralidade e da coordenação motora desde que começou a treinar com Beija-Flor, há quase cinco anos. Durante a aula, ele interage com os alunos e com o professor e ainda participa da roda, que é o momento mais esperado por todos, na qual os praticantes desenvolvem os movimentos aprendidos ao som da música tocada pelo berimbau, acompanhada pelas palmas e pelo coro que responde o refrão. “A roda nada mais é que uma metáfora da vida real”, explica o professor. Em meio a um clima de treinamento intenso, esforço, alegria e amizade, a deficiência mental de Ivan não faz dele um capoeirista diferente de nenhum outro. Ao contrário, este homem tem uma determinação pouco encontrada.
  Cumpre uma agenda cheia ao longo da semana, pois, também, freqüenta aulas de Judô, Tênis, Dança de Salão, Dança Cigana e de pintura. Com a experiência de quem já conquistou medalha de prata e bronze no Campeonato Internacional de Patinação na Carolina do Norte, Ivan diz ser necessário treinar bastante e se alimentar bem.
  Além dos benefícios do esporte adaptado, a capoeira agrega um algo mais, que se encontra no companheirismo e na relação de afetividade criada durante as aulas, na cumplicidade a cada troca de movimentos e na confiança que é necessário depositar no parceiro na hora da roda. “A amizade é tudo para mim”, diz Ivan. Segundo a irmã Ely, que o acompanha em algumas de suas atividades, ele adora “bater-papo”, diz que o irmão sai de casa mais cedo para ficar conversando com o pessoal na academia.
  Outro diferencial desta arte, segundo Alex Souza Santos, Professor Formiguinha do Grupo Mangangá, que foca seu trabalho nos deficientes físicos, é a magia e energia da Capoeira, somado ao som do berimbau. Além disso, há outros pontos que devem ser levados em consideração pelo interessado em se tornar um praticante, segundo ele: “É muito importante o acompanhamento de um profissional para transmitir segurança, respeito e amor aos seus discípulos.”
  O despreparo e a insegurança de alguns destes profissionais, muitas vezes, os acabam impedindo de realizar um trabalho com um público diferente do convencional. Beija-Flor diz ser necessário estudar a patologia do aluno com deficiência e tomar alguns cuidados, mas deixa claro que isto não é o principal. “O fundamental é se trabalhar com paixão e emoção com os alunos”. O professor explica que começou a trabalhar a Capoeira com esta nova abordagem naturalmente e que, na verdade, aprendeu mais com seus alunos do que os ensinou. “Acredito que cada história de vida, cada desafio superado, cada meta alcançada foi na verdade uma lição de vida para todos nós do Projeto Beija-Flor. Isto influenciou a maneira com que lido com os problemas e dificuldades. Aprendi a ser uma pessoa mais grata e também mais forte para lidar com adversidades”.
  Correntes são rompidas quando pessoas como Beija-Flor e Formiguinha ousam usar sua capacidade e sensibilidade em prol da possibilidade de descobrimento e superação de outros, como Ivan Ollita. Pois para o Professor Formiguinha a deficiência não existe somente no aparelho locomotor ou nos sentidos, para ele, “o mundo tem que se livrar da deficiência que existe em nossos corações, que é exatamente a falta de amor e respeito um com o outro”.
  Em pleno século XXI, a Capoeira mais uma vez se torna ferramenta de libertação, não mais dos escravos negros, mas das pessoas que ainda precisam superar seus limites, quaisquer que sejam eles, tenham elas deficiência ou não.

“...Capoeira arma poderosa, luta de libertação...”
Mestre Mão Branca, Grupo Capoeira Gerais

* A Revista SuperAção é um projeto experiemental criado e produzida por Mariana Cardoso e mais 11 colegas da turma 2MCSNJO, 2ª ano de Jornalismo da Universidade São Judas Tadeu e editada por Mariana Cardoso para fins acadêmicos em 2008.

Nenhum comentário:

Postar um comentário