Em meio ao paradoxo do espaço virtual ilimitado numa sociedade apressada e efêmera, como jornalista de coração, formação e profissão que sou, filtrei neste blog conteúdo que vale a atenção: um pouco de mim por meio da aura dos meus textos.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Finalmente posso partilhar um pouco de mim com vocês! Selecionei alguns textos, produzidos ao longo do tempo, pelos quais tenho um carinho especial. Inicio com os capítulos que produzi para meu livro-reportagem e os respectivos agradecimentos, pois esse projeto significou a concretização de uma importante etapa da minha vida, a conclusão do curso de Jornalismo em 2010. O destaque que dou para os textos iniciais deve-se também à questão humana que norteou o processo de elaboração e produção. Talvez falte, algumas vezes, ao jornalismo atual olhar mais pela ótica de humanidade e relevância social e menos pela de produção e espetacularização. Leiam, curtam, comentem, indiquem, questionem, discutam e aproveitem!
Agradecimentos: * 'Longe de Casa, A urgente Realidade do Acolhimento Familiar e Institucional no Estado de São Paulo'
Dezembro/2010
MARIANA CARDOSO
Agradeço à Deus em primeiro lugar, pois Ele permitiu que eu cursasse Jornalismo na Universidade São Judas Tadeu, dando à mim o entendimento e a coragem imprescindíveis e aos meus pais os meios necessários para tornar esse objetivo possível.
Aprendi que mudar o mundo começa com a mudança de nós mesmos, que pode resplandecer para o exterior e impactar a nossa volta por meio de ações concretas e muita fé em Deus. Agradeço assim, à todos aqueles que possibilitaram a concretização deste projeto, direta ou indiretamente: às instituições de acolhimento que abriram suas portas, Lar Santiago, Lar Filadélfia (Novo Acolher), Casa de Amparo Tia Marly e Aldeias Infantis SOS Brasil; às mães sociais Nanci e Lidia; à psicóloga que em muito nos orientou, Fabiana Brentan; aos professores que fizeram a diferença, Josiane Mozer, Moacir Assunção, Roberto Coelho, Aldo Bizzocchi, Alexandre Kieling e Jaqueline Lemos; às companheiras nos incontáveis trabalhos universitários, Auris Sousa, Flaviane Fernandes e Sabrina Pereira.
Aos meus pais, Hamilton Rizzo Campos e Vera Elisa P. Cardoso Campos, e ao meu irmão Rafael Cardoso, um agradecimento especial, pois me ensinaram o que significa o conceito de família. Com isso, a projeção do meu referencial na sociedade contemporânea, que fez aguçar meu senso crítico, permitiu-me enxergar um quadro, comumente ignorado atualmente, que ousei tentar retratar nas entrelinhas desta obra.
Agradeço especialmente, também, ao meu (então) noivo, Reinaldo Rodrigues, não só pela compreensão e paciência dispensadas durante quatro anos de muita dedicação ao universo acadêmico, mas, sobretudo, pelo apoio incondicional e pelo constante estímulo a prosseguir.
À todos que compreenderam minhas prioridades.
Meu obrigado, sobretudo, aos bebês, às crianças e aos adolescentes com quem compartilhei sorrisos, gestos, histórias e lágrimas, pois me ensinaram que é possível reinventar os significados da vida.
* Este texto foi extraído dos 'Agradecimentos' do livro-reportagem "Longe de Casa, a Urgente Realidade do Acolhimento Familiar e Institucional no Estado de São Paulo", um projeto experimental da disciplina Planejamento em Projetos (PLAPRO), do 4º ano de Jornalismo da USJT, desenvolvido durante o ano de 2010.
MARIANA CARDOSO
Agradeço à Deus em primeiro lugar, pois Ele permitiu que eu cursasse Jornalismo na Universidade São Judas Tadeu, dando à mim o entendimento e a coragem imprescindíveis e aos meus pais os meios necessários para tornar esse objetivo possível.
Aprendi que mudar o mundo começa com a mudança de nós mesmos, que pode resplandecer para o exterior e impactar a nossa volta por meio de ações concretas e muita fé em Deus. Agradeço assim, à todos aqueles que possibilitaram a concretização deste projeto, direta ou indiretamente: às instituições de acolhimento que abriram suas portas, Lar Santiago, Lar Filadélfia (Novo Acolher), Casa de Amparo Tia Marly e Aldeias Infantis SOS Brasil; às mães sociais Nanci e Lidia; à psicóloga que em muito nos orientou, Fabiana Brentan; aos professores que fizeram a diferença, Josiane Mozer, Moacir Assunção, Roberto Coelho, Aldo Bizzocchi, Alexandre Kieling e Jaqueline Lemos; às companheiras nos incontáveis trabalhos universitários, Auris Sousa, Flaviane Fernandes e Sabrina Pereira.
Aos meus pais, Hamilton Rizzo Campos e Vera Elisa P. Cardoso Campos, e ao meu irmão Rafael Cardoso, um agradecimento especial, pois me ensinaram o que significa o conceito de família. Com isso, a projeção do meu referencial na sociedade contemporânea, que fez aguçar meu senso crítico, permitiu-me enxergar um quadro, comumente ignorado atualmente, que ousei tentar retratar nas entrelinhas desta obra.
Agradeço especialmente, também, ao meu (então) noivo, Reinaldo Rodrigues, não só pela compreensão e paciência dispensadas durante quatro anos de muita dedicação ao universo acadêmico, mas, sobretudo, pelo apoio incondicional e pelo constante estímulo a prosseguir.
À todos que compreenderam minhas prioridades.
Meu obrigado, sobretudo, aos bebês, às crianças e aos adolescentes com quem compartilhei sorrisos, gestos, histórias e lágrimas, pois me ensinaram que é possível reinventar os significados da vida.
* Este texto foi extraído dos 'Agradecimentos' do livro-reportagem "Longe de Casa, a Urgente Realidade do Acolhimento Familiar e Institucional no Estado de São Paulo", um projeto experimental da disciplina Planejamento em Projetos (PLAPRO), do 4º ano de Jornalismo da USJT, desenvolvido durante o ano de 2010.
Recepção que decide destinos
Junho/2011
MARIANA CARDOSO
Está tudo preparado. Os médicos usam pijamas cirúrgicos na cor azul, aventais, gorros, máscaras, propés e luvas, tudo devidamente esterilizado. As enfermeiras, igualmente trajadas, auxiliam com os últimos preparativos. A gestante deitada na mesa de cirurgia, consciente, não esconde a ansiedade. Sorri. O marido, fardado com todo o vestuário próprio para acompanhar a operação, está certamente mais ansioso do que a futura mamãe.
MARIANA CARDOSO
Está tudo preparado. Os médicos usam pijamas cirúrgicos na cor azul, aventais, gorros, máscaras, propés e luvas, tudo devidamente esterilizado. As enfermeiras, igualmente trajadas, auxiliam com os últimos preparativos. A gestante deitada na mesa de cirurgia, consciente, não esconde a ansiedade. Sorri. O marido, fardado com todo o vestuário próprio para acompanhar a operação, está certamente mais ansioso do que a futura mamãe.
Da janela, que permite aos familiares e amigos assistirem ao parto, é retirada a proteção que a cobria, e as sete pessoas coladas ao vidro sentem o coração pulsar. Irmã, a sobrinha e o noivo da sobrinha compõem a torcida do lado da grávida. A mãe e o tio integram o time do marido. Um casal, estando a esposa de sete meses e meio, representa os amigos em comum. A mãe da gestante, apesar do desejo e da angústia, opta por não assistir à cesariana e aguarda na sala ao lado. O cunhado, também prefere não ver, encosta as costas e a cabeça na parede e, de braços cruzados, cansado do trabalho, cochila sentado em garbosas, porém finas, almofadas pretas revestidas de courino sobre uma base de madeira que formam uma espécie de sofá em outra sala de espera. O futuro vovô, já coruja, espia pelo vidro a todo momento, mesmo que o orientem para preservá-lo a não olhar nos momentos que impressionam mais. As mãos inquietas e os curtos passos perdidos que quase marcam um círculo no chão, porém, não escondem o anseio.
- Não olha agora, vô!
Após 39 semanas de uma espera conjunta, chega o momento. A cirurgia está marcada para duas e meia da tarde, com internação prevista para o meio-dia. Mas, na hora de sair, desajeitada, com uma barriga imensa, Flavia começa a se sentir mal, iniciam-se as contrações, que lhe parecem uma forma de cólica intestinal, só que de intensidade fora do convencional, espaçando-se a cada sete minutos. A dor toma conta da barriga toda, impossível saber o ponto exato em que se sente. Forte, tão forte, que enfraquece braços e pernas e gera náusea, uma gastura.
No carro acompanhada da irmã mais velha, da sobrinha e do esposo, que parece ter esquecido o caminho que faz todos os dias, rumam ao número 383 da Alameda Joaquim Eugênio de Lima, travessa da avenida Paulista, centro financeiro de São Paulo, onde localiza-se o Pro-Matre. No caminho da maternidade, a expectativa invade o veículo, que se enche de um turbilhão de sentimentos: apreensão, amor, ansiedade, um carinho enorme... As mãos das irmãs se tocam repousando sobre o encosto de cabeça do banco do motorista. A espera que se arrasta no tempo é constatadamente maior do que a real contagem dos segundos. O suor que escorre irregularmente da palma das mãos da sobrinha autentica a delonga.
No hospital algumas mães aguardam para passar pela triagem, ser internadas ou entrar no apartamento que lhes fora reservado. No pronto-atendimento, separado em três ambientes, há sanitários masculino e feminino, limpos, espaçosos, com sabonete e papel; máquina para consumo de alimentos rápidos, que funciona com notas e moedas; filtro com água gelada; salas e recepção para agilizar a prestação dos serviços. As poltronas dispostas no local, que exibem elegantemente assentos almofadados, fazem gestantes e acompanhantes afundar numa fofura envolta em couro bege.
Atentos, os médicos trabalham, e nem mesmo a inacreditável tranqüilidade do esposo ao tirar fotos pode desconcentrá-los. Flávia olha para o vidro e, com o corpo dormente do estômago para baixo devido à anestesia aplicada há pouco, reconhece a família tão presente, triunfante para receber Manuela.
A gestante detecta apenas uma pressão na região abdominal, mas não sabe ao certo o que está acontecendo. Sente algo diferente, a pressão aumenta na boca do estômago como um desentupidor de pia ao ser pressionado contra o alvo e puxado em seguida. A barriga murcha. Usando o indicador e o polegar, apoiada na palma de sua mão, doutor Mauro retira a cabeça, tão pequena, coberta pelo sangue que deixa o cabelo emplastado. A torcida vibra.
― Hôooooooooooo!
O obstetra extrai o corpo de 48 centímetros, 3,750 kg e alcança o clímax na platéia:
― Haaaaaaaaaaaaa!
― Ai meu Deus!
― Nasceu!
― Graças a Deus!
― Que linda!
― Obrigada, Senhor!
― Hummmmmm!
― Hunf, hunf...
E Manuela responde:
― Huuum... Hunhéééééééééééé!
O êxtase inunda Flávia.
Meu Deus! É de verdade mesmo? Será que é ela? Minha filha? Minha? Mas parece uma boneca! Saiu de mim? ...ou será que o doutor pegou na prateleira? Parece com quem? Não parece comigo... com o pai? Eu... Eu...
― Hunhéééééééééééé! Hunhéééééééééééé! Hunhéééééééééééé!
A enfermeira apresenta a recém nascida à mamãe, encosta o seu rostinho no de Flavia e ela, simplesmente, se cala.
― Ah... (suspiro)
Após três horas no centro cirúrgico, como é de praxe depois de uma cesariana, Flavia chega ao quarto 470, o último do corredor. Familiares e amigos a recebem, e logo chega a Manuela trazida pela enfermeira. Vê a filha chegando ao quarto, envolta em seu macacão de plush branco, reservado especialmente para a ocasião, começa a chorar e escuta desatenta a profissional, que lhe passa orientações enquanto confere o código de barras na pulseira de mãe e filha por meio de um aparelho digital. A emoção é imensurável, a mais nova mamãe não para de pensar em sua bebê, ali, tão perto, tão linda. Recebe-a em seus braços, a pele lisinha e rosa, os olhos já abertos. Os dedos da mamãe percorrem suavemente pela primeira vez sua testa e bochecha, os olhos fixos não desgrudam daquele pedaço de vida, que acabara de chegar, tranqüila, “boazinha”, segundo o esposo, como um presente divino.
Passados os três dias de internação, em que as profissionais da saúde prestaram todo o apoio necessário à recém-operada, ao marido, e à neném - banho, troca de fraldas, alimentação, amamentação, higienização - a família volta para casa, onde continuam os mimos, carícias e longas horas de atenção dispensadas à nova vida que passou a integrar o núcleo familiar.
― humhumhumm, humhumhumm... humhumhúmhúm, umhumhummmmm......... Canta Flávia envolvendo ternamente sua filha nos braços, num gesto, simplesmente, maternal.
À procura de um colo
A cesta arredondada de vime repousa em cima do pequeno móvel de cabeceira repleta de expectativas e produtos infantis. Óleo para o corpo, xampu, sabonete, algodão, talco, cotonete e chupeta.
Rafael tem quase tudo.
No guarda roupas de madeira, na parede ao lado da porta, macacões pendurados um em cada cabide, exalando cheiro de novo. Os mijões e bodies dobrados logo abaixo são dispostos em cima um do outro. Cobertores, fraudas de pano e descartáveis somam-se à lista de pertences.
Carinho, até que tem...
O corpanzil desajeitado e mimoso de Nanci, mãe social do Aldeias Infantis SOS Brasil, se aconchega na estreita cama de solteiro ao lado do pequeno de 30 dias de vida, enrolado num coeiro em forma de envelope, envolto numa manta de soft. A mulher gorda, de feição doce e sorriso cansado, acalenta o bebê ao qual recebeu, inesperadamente, na casa de número 09 de uma instituição de acolhimento familiar na zona sul de São Paulo. Mas embora os braços abertos, Nanci não consegue se conformar.
Como ela teve coragem de entregá-lo, simplesmente abrir mão??? Meu Deus! Qual a explicação? Será que alguma coisa justifica? Onde estará esta moça agora, hein? Deus é que sabe...
Destino, história, raiz, difícil dizer...
Nascido em 19 de junho de 2010, na capital paulista, Rafael chegou a casa lar, assim que teve alta da maternidade. Hã, chegou não, melhor, fora levado pelo coordenador da organização disponível para recebê-lo, um estranho completo.
A afeição que enchia de fantasia o quarto do bebê recém-chegado se esvazia com as mãos ternas de Nanci agora distantes. Transferida de Rio Bonito para a unidade de Poá, a atriz que encenava o papel maternal, é obrigada a deixar Rafael.
Mesmo sabendo que assim como em diversas outras instituições de acolhimento familiar ou institucional há no Aldeias um elenco inteiro, Nanci não viaja sossegada.
Quais integrantes contracenarão na novela de Rafael? Por quanto tempo? Mas e... e depois??? Em qual das casas irá morar? Até quando? Como? Hã, não tenho como saber... Posso ligar, perguntar, mandar carta... besteira! Que nada, nem vai lembrar de mim... Ah ...
Solta a cabeça sobre o pescoço que se curva para baixo. Fecha os olhos lentamente. Abre-os. Respira fundo. Suspira:
― Não sei qual será o seu destino.
* Este texto corresponde ao capítulo 1 do livro-reportagem "Longe de Casa, a Urgente Realidade do Acolhimento Familiar e Institucional no Estado de São Paulo", um projeto experimental da disciplina Planejamento em Projetos (PLAPRO), do 4º ano de Jornalismo da USJT, desenvolvido durante o ano de 2010.
Lídia, o cansaço dos resultados frustrados
Os olhos puxados, que denunciam a ascendência oriental, não conseguem esconder as olheiras acentuadas, roxas como duas fatias cortadas ao meio de uma beterraba bem escura. São vinte anos. O cabelo timidamente grisalho emoldura o rosto até o nível do queixo, a franja sobreposta às sobrancelhas bem feitas quase chega a alcançar os cílios, que abrem e fecham, abrem e fecham, abrem e fecham rapidamente numa tentativa frustrada de camuflar a emoção.
Mãe social, Lídia não gosta:
– É muito competitivo!
Cuidadora também não retrata o que realmente faz, ou melhor, é:
– Parece que é só um cuidar físico...
Educadora, talvez. A risadinha tímida, de alguém que quer falar, mas teme se abrir, permeia a fala de uma entre cinco irmãos, que optou, logo após deixar de trabalhar no pequeno negócio da família, em viver num condomínio de casas, ao qual se dá o nome de Aldeias Infantis SOS. Correspondente à unidade Rio Bonito, de um programa originado na Áustria por Hermann Gmeiner, há 61 anos, localiza-se em Interlagos, zona sul de São Paulo. É um entre os 132 trabalhos espalhados pelo mundo, estando onze deles no Brasil.
O primeiro ano, reservado ao preparo técnico e prático da mãe social, antecedeu os próximos dezenove vividos na casa 11. A fala exageradamente mansa, em tom baixo, que projeta uma abertura pequena entre os lábios arredondados, delineando uma maçã alongada ao se movimentarem, realça a aura pesarosa dos olhos lacrimejantes de quem não, não... não sabe o que falta:
- É muito pouco! O tom de decepção, que paira na voz quase entalada, esclarece o real nível de eficácia das coisas na casa-lar.
Profissional. É como Lídia se define, talvez, como se doutrine. Envolvimento, impossível não ter com crianças e adolescentes de 10, 12, 13, 14, 15, 16 e 17 anos, porém, sabe que ali a situação é provisória – enfatiza. Tem ciência de que não é a Mãe dessa turma e que a casa está ainda distante de ser o que o próprio nome diz, pelo menos pensando-se no conceito socialmente construído e aceito pela sociedade no que se refere a lar.
– Fico em cima deles!
Também cuida, orienta, aconselha, oferece apoio. Explica que faz tudo o que está ao seu alcance, mas mantém certa distância.
- Se não for forte, a gente entra em depressão, adoece...
O circunspecto distanciamento emocional diante dos abrigados (que aqui não se reconhecem na condição de vulnerabilidade social) lhe permite enxergar algo errado na engrenagem, seus olhos lacrimados, porém, não enxergam a peça faltante, aumentando a agonia de não saber como convalescer os resultados:
- Eles não se esforçam, não querem nada. Se houvesse alguma coisa que pudesse mudar a cabecinha deles...
Nem mesmo as duas décadas de experiência puderam responder a questão angustiante que flagela dia-a-dia uma mulher de 55 anos, cuja história esbarra na de mais de 40 crianças e adolescentes que já passaram por sua casa, a de número 11. Em pensar que tudo começou com uma simplória reportagem de jornal (qual jornal?), que levou Lídia a procurar emprego no Aldeiais...
- O mais triste é quando os pais preferem vê-los aqui do que na própria casa e não fazem questão de que voltem! Ah...
Suspira. A cabeça cai.
O olhar distante que mira em direção a respostas, procura um oásis em que a incógnita, que lhe rouba incessantemente a esperança, seja subitamente desvendada, como o resultado de uma operação matemática, ao qual se tem certeza de chegar.
No vão de suas palavras, a voz que sai sem força espelha a certeza de que há, sim, uma solução à indagação que lhe rasga o interior. Talvez não a encontre, talvez descubra que acolhimento familiar não é uma constante matemática, exata. Ao contrário, a prática não coincide com a teoria. Lídia conhece a lei, inequívoca, prevista nas Orientações Técnicas dos Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes, mas não consegue enxergar onde está a promoção dos estímulos à autonomia dos acolhidos, nem atitudes que favoreçam o fortalecimento dos vínculos familiares entre eles e as respectivas famílias de origem.
A voz embargada ao falar soa como uma negação da possibilidade de consolidação do que é proposto na lei e o que acontece debaixo dos seus olhos na casa-lar em que mantém os cômodos limpos, a sala, a cozinha e a rotina organizadas.
Mais uma vez a tímida risada, que impulsiona o rosto a se virar lateralmente, os pés a se encolherem puxados pelas pernas, e as mãos a se entrelaçarem, deixa transparecer a determinação, camuflada debaixo da timidez, de alguém que procura respostas.
– Se eles são abertos eu não sei - refere-se à instituição - mas eu sou. E trajando-se e seriedade na entonação, afirma categórica:
- Quero encontrar caminhos que dêem mais resultado!
Estatísticas têm cara
Julho/2010
MARIANA CARDOSO
― Hâaaaaaaaaa, hâhâ! Hunf, hunf!!
Aquele choro... e um grito ecoou um sopro sufocado:
― Mãaaaaaaaaaaaaaaae!
Em poucos minutos a agressividade de Otávio se esfacelou num choro longo e confuso.
Por que ao fim do dia ninguém vem aqui me buscar? Me visitar? Quando virão? ...Virão?
Na Casa de Amparo Tia Marly, Otávio toma café da manhã, almoça, janta, faz a lição, aprende, brinca, toma banho, dorme. E dorme todo dia!
Junto às outras dezesseis crianças, incluindo Carla e Juliana, as mais novas, com quatro meses de vida, o garoto de pele morena, cabelo batido, bochechas gordas e comportamento impulsivo recepciona desconfiado à todos que visitam o lar que abriga crianças de zero a oito anos em situação de risco pessoal e social. Como duas grandes bolas de gude arremessadas rapidamente durante uma partida, os olhos pretos de Otávio percorrem as visitantes, observando o tamanho, a idade, o vestuário e a atitude das visitas que passam pelo cumprido corredor que liga a sala de visitas à lavanderia. Com as mãos escondidas atrás das costas e a cabeça encostada na parede, Otavio examina de “rabo de olho” duas jovens que foram passar algumas horas com as crianças do local.
As visitantes voltam para a sala, mas um berro ressoa por todo andar superior da casa:
― Nãaaaaaaaaaaaaaaaao!
E na seqüência:
― Me dá!
― É meu!
― Tira a mão!
É o suficiente para que uma das sempre atentas educadoras se volte para os meninos, primos, na verdade.
― O que houv...?
É interrompida por um turbilhão de justificativas que são cuspidas ao mesmo tempo:
― Ele me bateu!
― Eu bati nele porque ele me bateu primeiro.
A carência de menino abandonado pela família, antes expressada pela tentativa reprimida de desferir uma pancada com um brinquedo no amigo, transbordou num arranhão que marcou o rosto de Maicon.
As voluntárias, que freqüentam o local normalmente uma vez por semana, e permanecem na sala de visitas por duas ou mais horas, embora dispostas, não demonstram entender o comportamento de Otávio. As educadoras, no entanto, que trabalham em turnos de três por um, experimentam o convívio mais estreito com as crianças acolhidas e debruçam um olhar aprofundado, explicam:
― Só resolve com a tia Marly!
Marly Correa do Nascimento, uma entre os 17 fundadores da casa de amparo, foi homenageada com o nome da instituição, pois após trabalhar dez anos no abrigo São João Batista, assistiu de perto ele ser fechado quando do falecimento de seu dirigente. O fato suscitou-lhe a ideia de dar prosseguimento à política de acolhimento institucional num novo espaço.
O que era um desejo transformou-se num ambiente familiar, cheio de carinho e desenhos coloridos pelas paredes, que hoje oferece a possibilidade de um desenvolvimento integral e um delicioso aconchego para o Otávio, a Juliana, a Carla, a Tainá, a Rafaela, a Duda, o Paulo, a Bruna, o Ícaro, o Wendel, a Janaina, a Tatiana, o Lucas, a Eduarda, a Ana Paula, o Mateus e o Felipe, que diferentemente das outras milhares de crianças espalhadas pelas ruas do país ou inseridas em famílias desestruturadas encontram na casa Tia Marly uma referência familiar. Estão seguros contra os maus tratos, a fome, a carência e a violência de toda natureza, que levam à vulnerabilidade social.
― Tiiiiiiiiiia!
― É meeeeeeu!
― Esperaaaa!
― Eu queroooo!
― Há, Há, Háaaaaa!
A gritaria de meninos e meninas enche de alegria o sobrado que, de fora, não revela os seus mais de 276 metros quadrados. Preenchidos de beliches, os dois quartos, assim como os dois banheiros, que contam com quatro vasos sanitários individualizados e um chuveiro cada, são separados: um para os meninos e outro para as meninas. Os garotos menores até podem tomar banho no banheiro feminino, os maiores já devem respeitar a regra da divisão, como muitas outras que são seguidas na casa.
É no berçário que pode ser observado através do vidro que toma grande parte da parede do corredor, onde além dos quatros berços, há um guarda-roupa de alvenaria sem portas até o teto, repleto de peças infantis, que as bebês, Carla e Juliana, passam a maior parte do tempo.
Já na sala de estar, ainda no andar de cima, revestida de carpete para o conforto da garotada, Janaiana se diverte correndo e berrando no meio dos visitantes; Rafaela sobe no carrinho de brinquedo para alcançar a estante; Wendel pula de um sofá para o outro. Na televisão, clipes musicais infantis prendem a atenção de alguns enquanto outros espalham-se nos colos das jovens visitas, penduram no pescoço ou lhes mexem nos longos cabelos.
Na parte externa da casa, no final de uma rampa que começa logo após o portão de entrada, o escorregador vazio e as balanças sem movimento no parque molhado pela chuva, ficam tristes nos dias de frio. Quando o clima está propício e, principalmente, nas férias escolares, meninas e meninos fazem estripulias na piscina de bolinhas, sobem, descem, sobem, descem, sobem e descem pelo escorregador da casa de plástico e dirigem pra lá e pra cá, de um lado para o outro o carro que tem volante e até buzina:
― Biiiiiiiiiii! Bi, bi!!!! Brum, bruuuuuuuuuum...
Entre esbarrões no meio da correria, abraços, beijos e a voz das voluntárias misturada à agitação das crianças, a diversão adentra a tarde:
― Desce daí já! Cuidado! Não, assim não pode! Devagar!
Além dos momentos livres de lazer, na Casa de Amparo Tia Marly acontecem também as atividades direcionadas: lição de casa, reforço escolar e brincadeiras lúdicas, além dos acompanhamentos médico, psicológico e fonoaudiológicos.
Chega a hora esperada para alguns, que devoram o lanchinho todo, e amarga para outros pequenos que relutam a limpar o prato. Mesmo em dia de visita, calçar o sapato e descer da sala para a cozinha significa que é hora do café da tarde.
Na lavanderia a “tia da limpeza” bate as roupas usadas na máquina de lavar e torce os panos sujos após a higienização dos banheiros, bem cuidados e adaptados ao tamanho da criançada. E nada de descuido, a longa escada, que dobra em “L” para dar acesso aos cômodos administrativos e à entrada e saída do lar, está sempre protegida por 80 centímetros de um portão branco, reforçado por um nó feito com uma frauda de pano na trava. Afinal, alguns espertinhos já descobriram como abrí-lo.
Tia Marlene enrola Tainá na toalha após o banho do fim da tarde. Ergue-a até conseguir colocar a menina de dois anos, gênio forte e corpo franzino, em cima do trocador. Deita-a e enxuga-a. Com uma mão segura a criança, com a outra, esticando bem o braço, abre a porta do armário. As fraudas fartas, a pomada para assaduras e creme para pentear aproveitados até o finalzinho, o talco, o sabonete e o lenço umedecido só enchem as prateleiras do armário bem limpo de aço, que fica no banheiro das meninas, porque ainda existem pessoas capazes de se sensibilizar com as necessidades dessas crianças, segundo as “tias” do local:
― É tudo doação - explica tia Marlene penteando os cabelos molhados da garota risonha e inquieta - quando está acabando a tia Marly já manda e-mail e pede colaboração!
A ajuda vem também em forma de calçados, roupas, brinquedos, livros, jornais, dedicação, tempo, prestatividade, solidariedade e boa vontade. No bazar, as funcionárias, que não trabalham simplesmente, mas se entregam de corpo e alma ao abrigo, organizam os artigos para a venda, que arrecada fundos para a realização do sonho comum, a compra da casa alugada em que funciona o lar daqueles abandonados que foram acolhidos. É... abandonados, sim, mas acolhidos, no sentido mais fiel da palavra: protegidos. Refugiados da dor, da angústia, do medo, da falta, do descaso.
* Este texto corresponde ao capítulo 6 do livro-reportagem "Longe de Casa, a Urgente Realidade do Acolhimento Familiar e Institucional no Estado de São Paulo", um projeto experimental da disciplina Planejamento em Projetos (PLAPRO), do 4º ano de Jornalismo da USJT, desenvolvido durante o ano de 2010.
MARIANA CARDOSO
― Hâaaaaaaaaa, hâhâ! Hunf, hunf!!
Aquele choro... e um grito ecoou um sopro sufocado:
― Mãaaaaaaaaaaaaaaae!
Em poucos minutos a agressividade de Otávio se esfacelou num choro longo e confuso.
Por que ao fim do dia ninguém vem aqui me buscar? Me visitar? Quando virão? ...Virão?
Na Casa de Amparo Tia Marly, Otávio toma café da manhã, almoça, janta, faz a lição, aprende, brinca, toma banho, dorme. E dorme todo dia!
Junto às outras dezesseis crianças, incluindo Carla e Juliana, as mais novas, com quatro meses de vida, o garoto de pele morena, cabelo batido, bochechas gordas e comportamento impulsivo recepciona desconfiado à todos que visitam o lar que abriga crianças de zero a oito anos em situação de risco pessoal e social. Como duas grandes bolas de gude arremessadas rapidamente durante uma partida, os olhos pretos de Otávio percorrem as visitantes, observando o tamanho, a idade, o vestuário e a atitude das visitas que passam pelo cumprido corredor que liga a sala de visitas à lavanderia. Com as mãos escondidas atrás das costas e a cabeça encostada na parede, Otavio examina de “rabo de olho” duas jovens que foram passar algumas horas com as crianças do local.
As visitantes voltam para a sala, mas um berro ressoa por todo andar superior da casa:
― Nãaaaaaaaaaaaaaaaao!
E na seqüência:
― Me dá!
― É meu!
― Tira a mão!
É o suficiente para que uma das sempre atentas educadoras se volte para os meninos, primos, na verdade.
― O que houv...?
É interrompida por um turbilhão de justificativas que são cuspidas ao mesmo tempo:
― Ele me bateu!
― Eu bati nele porque ele me bateu primeiro.
A carência de menino abandonado pela família, antes expressada pela tentativa reprimida de desferir uma pancada com um brinquedo no amigo, transbordou num arranhão que marcou o rosto de Maicon.
As voluntárias, que freqüentam o local normalmente uma vez por semana, e permanecem na sala de visitas por duas ou mais horas, embora dispostas, não demonstram entender o comportamento de Otávio. As educadoras, no entanto, que trabalham em turnos de três por um, experimentam o convívio mais estreito com as crianças acolhidas e debruçam um olhar aprofundado, explicam:
― Só resolve com a tia Marly!
Marly Correa do Nascimento, uma entre os 17 fundadores da casa de amparo, foi homenageada com o nome da instituição, pois após trabalhar dez anos no abrigo São João Batista, assistiu de perto ele ser fechado quando do falecimento de seu dirigente. O fato suscitou-lhe a ideia de dar prosseguimento à política de acolhimento institucional num novo espaço.
O que era um desejo transformou-se num ambiente familiar, cheio de carinho e desenhos coloridos pelas paredes, que hoje oferece a possibilidade de um desenvolvimento integral e um delicioso aconchego para o Otávio, a Juliana, a Carla, a Tainá, a Rafaela, a Duda, o Paulo, a Bruna, o Ícaro, o Wendel, a Janaina, a Tatiana, o Lucas, a Eduarda, a Ana Paula, o Mateus e o Felipe, que diferentemente das outras milhares de crianças espalhadas pelas ruas do país ou inseridas em famílias desestruturadas encontram na casa Tia Marly uma referência familiar. Estão seguros contra os maus tratos, a fome, a carência e a violência de toda natureza, que levam à vulnerabilidade social.
Um lugar para chamar de lar
― Tiiiiiiiiiia!
― É meeeeeeu!
― Esperaaaa!
― Eu queroooo!
― Há, Há, Háaaaaa!
A gritaria de meninos e meninas enche de alegria o sobrado que, de fora, não revela os seus mais de 276 metros quadrados. Preenchidos de beliches, os dois quartos, assim como os dois banheiros, que contam com quatro vasos sanitários individualizados e um chuveiro cada, são separados: um para os meninos e outro para as meninas. Os garotos menores até podem tomar banho no banheiro feminino, os maiores já devem respeitar a regra da divisão, como muitas outras que são seguidas na casa.
É no berçário que pode ser observado através do vidro que toma grande parte da parede do corredor, onde além dos quatros berços, há um guarda-roupa de alvenaria sem portas até o teto, repleto de peças infantis, que as bebês, Carla e Juliana, passam a maior parte do tempo.
Já na sala de estar, ainda no andar de cima, revestida de carpete para o conforto da garotada, Janaiana se diverte correndo e berrando no meio dos visitantes; Rafaela sobe no carrinho de brinquedo para alcançar a estante; Wendel pula de um sofá para o outro. Na televisão, clipes musicais infantis prendem a atenção de alguns enquanto outros espalham-se nos colos das jovens visitas, penduram no pescoço ou lhes mexem nos longos cabelos.
Na parte externa da casa, no final de uma rampa que começa logo após o portão de entrada, o escorregador vazio e as balanças sem movimento no parque molhado pela chuva, ficam tristes nos dias de frio. Quando o clima está propício e, principalmente, nas férias escolares, meninas e meninos fazem estripulias na piscina de bolinhas, sobem, descem, sobem, descem, sobem e descem pelo escorregador da casa de plástico e dirigem pra lá e pra cá, de um lado para o outro o carro que tem volante e até buzina:
― Biiiiiiiiiii! Bi, bi!!!! Brum, bruuuuuuuuuum...
Entre esbarrões no meio da correria, abraços, beijos e a voz das voluntárias misturada à agitação das crianças, a diversão adentra a tarde:
― Desce daí já! Cuidado! Não, assim não pode! Devagar!
Além dos momentos livres de lazer, na Casa de Amparo Tia Marly acontecem também as atividades direcionadas: lição de casa, reforço escolar e brincadeiras lúdicas, além dos acompanhamentos médico, psicológico e fonoaudiológicos.
Chega a hora esperada para alguns, que devoram o lanchinho todo, e amarga para outros pequenos que relutam a limpar o prato. Mesmo em dia de visita, calçar o sapato e descer da sala para a cozinha significa que é hora do café da tarde.
Na lavanderia a “tia da limpeza” bate as roupas usadas na máquina de lavar e torce os panos sujos após a higienização dos banheiros, bem cuidados e adaptados ao tamanho da criançada. E nada de descuido, a longa escada, que dobra em “L” para dar acesso aos cômodos administrativos e à entrada e saída do lar, está sempre protegida por 80 centímetros de um portão branco, reforçado por um nó feito com uma frauda de pano na trava. Afinal, alguns espertinhos já descobriram como abrí-lo.
Tia Marlene enrola Tainá na toalha após o banho do fim da tarde. Ergue-a até conseguir colocar a menina de dois anos, gênio forte e corpo franzino, em cima do trocador. Deita-a e enxuga-a. Com uma mão segura a criança, com a outra, esticando bem o braço, abre a porta do armário. As fraudas fartas, a pomada para assaduras e creme para pentear aproveitados até o finalzinho, o talco, o sabonete e o lenço umedecido só enchem as prateleiras do armário bem limpo de aço, que fica no banheiro das meninas, porque ainda existem pessoas capazes de se sensibilizar com as necessidades dessas crianças, segundo as “tias” do local:
― É tudo doação - explica tia Marlene penteando os cabelos molhados da garota risonha e inquieta - quando está acabando a tia Marly já manda e-mail e pede colaboração!
A ajuda vem também em forma de calçados, roupas, brinquedos, livros, jornais, dedicação, tempo, prestatividade, solidariedade e boa vontade. No bazar, as funcionárias, que não trabalham simplesmente, mas se entregam de corpo e alma ao abrigo, organizam os artigos para a venda, que arrecada fundos para a realização do sonho comum, a compra da casa alugada em que funciona o lar daqueles abandonados que foram acolhidos. É... abandonados, sim, mas acolhidos, no sentido mais fiel da palavra: protegidos. Refugiados da dor, da angústia, do medo, da falta, do descaso.
Tia, não sou uma estatística!
Muito longe de ser um número, quando chegam ao abrigo da Tia Marly, os pequenos rejeitados ou retirados da família de origem, natural (pai e mãe) ou extensa (parentes próximos que guardam relação de afinidade e afetividade) são percebidos como serezinhos humanos únicos, que têm particularidades, e estas são levadas em consideração, respeitadas:
― Aqui não é como em muitos outros abrigos por aí, um depósito de criança.
Roberta, se embasando na experiência em acolhimento de uma década, pronuncia convicta a afirmação que a lembra da infeliz realidade ao redor do país. Atualmente muitos abrigos excedem o total de crianças determinado pela Lei Internacional da Adoção/2009 e não oferecem aos assistidos o tratamento previsto por ela.
Apesar dos seus apenas 30 anos de idade, Roberta já viveu muitas histórias ao lado de tia Marly no Abrigo São João Batista, pelo qual enche os olhos d´agua, lembrando-o com pesar. E ao visitar a casa de Amparo Tia Marly, confere grande credibilidade ao lar:
- É um trabalho sério.
Otávio deixou de ser apenas um dado, ele é tratado agora com o respeito que nunca recebera da família. Vem aprendendo a conversar, como diz a educadora Simone, “olho no olho”, ouve sempre uma voz que impõe regras a serem seguidas, porém sente um colo o aconchegando com imensa ternura, ao experimentar as primeiras trocas afetivas. O seu olhar, que cativa, é quase um convite, e expressa um pedido:
- Me olha!
O choro... Hã... aquele choro é só para não deixar esquecer que ser acolhido é apenas uma feliz conseqüência para quem, um dia, foi abandonado.
Daniela, a realidade do outro lado dos muros
Setembro/2010
MARIANA CARDOSO
Frio.
Uhhhhhh......vvvvvvvvv.......
O vento gélido corta o rosto. O céu cinzento ludibria desavisados que chegam a confundir dia e noite. Mais uma manhã de inverno rigoroso na capital paulista.
Encapuzados em seus longos cachecóis, gorros, fartas jaquetas, pesados casacos, galochas e botas de cano alto, os pedestres, tomados pela urgência do dia-a-dia na megalópole, definitivamente não olham um palmo à frente do que esteja fora de seu rotineiro, único e soberano caminho. Sequer percebem... a vida a sua volta.
Transeuntes sobem apressadamente as escadas, descem como se corressem em direção à linha de chegada da corrida mais importante de suas vidas. É só o ônibus, por um segundo se pode perdê-lo na saída sul do Terminal Rodoviário Barra Funda.
Acompanhando a multidão que desliza em massa pela escadaria que dobra duas vezes em “L”, Ana Paula segue em direção ao trabalho. De repente, para. E fica bem no meio do povo que quase a derruba, nela esbarrando.
― Sai da frente!
Meu Deus! Não posso continuar, seguir... Como? Não pode ser? Será que eu vi bem? O que eu faço? Volto? Mas pra falar o quê? Eu não posso fazer nada mesmo... Não agüento olhar...é, isso mesmo, melhor não olhar... Esqueça, já foi... passou... Estou atrasada, tenho horário, compromisso... Minha chefe me mata! Não é minha culpa, nem minha responsabilidade...Sinto tanto...Ah...mas infelizmente... é, não dá....
Ana Paula se trai. Vira-se e começa a subir lentamente os degraus, retornando àquela figura à qual seus olhos saltaram ligeiramente.
Mas o que eu vou dizer? Falo alguma coisa? Meu Deus! Meu Deus!
Abaixa-se até a altura dela e, agachada, diz:
― Por que você está aqui?
Trajava roupas próprias para o calor desfrutado num clube, numa represa. Verde limão era a cor do top e do shorts que vestia. As sandálias cor de rosa, que indicavam o crescimento dos pés sobrando uns dois dedos para fora do calçado, contrastavam com a blusa feita de uma lã rala, bastante gasta e um pouco suja, velha, grande demais para seu corpo franzino. Sobrava nos braços finos e chegava até os joelhos, quando sentada, Daniela puxava-a para proteger as pernas do clima que a castigava. Era uma menina. Só uma menina.
― Tô vendendo chiclete - Em tom baixo,envergonhado, amedrontado.
A pequena caixinha, com um teco de papel mal colado com durex, que dizia R$1,00, continha embalagens verdes com dez unidades cada e repousava no chão de mármore, escuro pela sujeira, congelante, o mesmo em que se abrigava a pequena criança.
Retirada ao cantinho de um tipo de plataforma que separa um lance da escada do outro, a pele nem branca nem negra da garota não deixa esquecer a herança da desigualdade que anos de escravidão no país impuseram à população, 3, 2 milhões de pardos, na maioria pobre. A franja mal cortada, que dividia numa linha um tanto torta o meio da testa, dava uma amostra dos cabelos, que presos num rabo de cavalo, recaiam sobre as costas encurvadas.
Uma moça para e, com a face moribunda, pergunta quanto é o chiclete. Tira uma nota de dois e leva duas cartelas. Ana Paula se acomoda em cima da bota de salto fino, de cócoras e arrisca novamente:
― Cadê sua mãe?
― Não tenho mãe.
O baque quase a faz desequilibrar-se de sua posição, já incômoda.
― E você mora com quem?
― Com meu pai
― Cadê ele?
―Trabalhando.
― Quantos anos você tem?
― Dez.
A jovem de 22 anos, mesmo achando as respostas coerentes, exceto, é claro, a idade - a garota não aparentava ter mais do que oito anos - tenta algo mais imediato.
― Você tá com fome?
A cabeça que balança carente para cima e para baixo, movimentando o pescoço num gesto afirmativo confirma o que, àquela altura já era previsível para Ana Paula. Abre a bolsa, tira um saquinho de mini pães de queijo recém comprados no terminal e os oferece à Daniela, que os devora velozmente. O coração quase aparente do lado de fora do peito, haja vista as tão fortes batidas, a angustia ainda mais. Ajeita-se e continua:
― Você não pode ficar aqui, sabia? É perigoso, você é menina, alguém pode te fazer mau. Diz pro seu pai que você tem que ir pra escola, que não pode ficar aqui.
Os ombros que sobem e descem num rápido movimento, sem ânimo e com quase força alguma, travam um silêncio. Vira a cabeça para o lado, os olhos inundados não deixam cair uma gota, parecem ser treinados, adestrados para não transbordar. Daniela não chora, apenas se retrai.
Ana Paula se envergonha por estar vestindo tantos acessórios para se proteger do frio. Olha para Daniela. Olha para si. Não pensa. Tira uma das blusas, a cacharel preta de lã.
― Pega, Daniela. Anda, tira essa sua blusa e põe essa por baixo. Agora deixa eu fechar a sua.
Sobe o zíper.
Desnorteada, Ana Paula não consegue entender de onde extraiu forças para fazer tudo aquilo, que não sabia bem o que era. Apenas sentiu que não conseguia mais.
―Toma cuidado, tá bom? E vai embora pra sua casa.
Hã... Inútil...
Já em pé, pronuncia um tchau embargado, agora olhando em direção ao mundo para fora do qual havia se transportado durante anos luz... É, na verdade foram minutos.
Senhor, fica com ela!!!!!!!!!!!
Toctoctoc – Continua a descer os degraus.
Não posso deixar que meus olhos se sequem
Em direção ao ônibus que a deixa na porta do trabalho, Ana Paula luta para conter a explosão de sentimentos que afloram dentro do peito. As pessoas somem ao redor. Aqueles que trombam com seu corpo desgovernado parecem apenas vultos. Com dificuldade sobe os três degraus do micro ônibus e ainda na catraca, desaba.
― Hummmmmmf......hummmmmmffff...
Tenta enxugar com o indicador em movimentos laterais as descontroladas lágrimas que caem sobre seu rosto. É impossível conter. Em pé mesmo, no centro de um corredor estreito de um transporte coletivo minúsculo, a jovem choooooooora.
No trabalho, a decepção. Sente mais uma vez a dor, imensurável, flagelar o mais profundo de sua alma.
Tuuuuuuuum, tuuuuuuuuuum, tuuuuuuuuuuuuum, tuuuuuuuuuuuuuuuum. Após chamar, chamar e chamar, finalmente alguém atende ao telefone no Conselho Tutelar da Praça da Sé. Ana Paula conta detalhadamente a situação, mas antes mesmo de terminar é interrompida:
― Você tem que ligar no 3228-5554, não é com a gente.
Em sua mesa do trabalho, já atrasada demais a começar suas atividades, a jovem insiste. Liga no número passado impaciente e grosseiramente e é informada de que o Recolhimento também não é o responsável.
Parece de nada ter adiantado aliviar o choro irreprimível no banheiro assim que pôs os pés na empresa depois de ser atacada por aquele pedaço inconveniente da realidade de seu país. Ali mesmo, sentada sobre a tampa do vaso sanitário, Ana Paula chorou, chorou e chorou. E orou à Deus, como poucas vezes se lembrava de ter clamado à Ele na vida, para que cuidasse daquela menina.
― Senhor........ unf, unf, unf!!!!!!!!!!!!! “Não posso deixar que meus olhos se sequem, preciso chorar, me desesperar...”, canta baixinho, aos soluços, um louvor que traduz seus sentimentos, ajudando-a a aliviar o nó na garganta.
O descaso por parte das autoridades responsáveis transformavam a aflição, a tristeza e a angústia de Ana Paula em indignação.
Não é possível, como assim, não, não é aqui?? Ah não, senhora, liga num sei aonde... Não é com a gente... Aqui não fazemos esse tipo de trabalho...
E a pior de todas as respostas:
― Ahhhhhhhh naaaaaão, senhora, ela não tá abandonada, então! Ela é vendedora, Ahhhhhh!
Por conta de uma caixinha de chicletes uma criança largada na rua assume o cargo de vendedora???????? Meu Deus! Como explicar pra esse imbecil que, então, estamos falando de trabalho infantil????? Será que preciso ensinar à ele seu próprio trabalho, aquilo que é previsto pelo ECA?
― Se é exploração de menor, aí sim, é que vocês precisam investigar, então! Mandar uma equipe de busca atrás da família dela!!!!!!!!
As mãos de Ana Paula tremiam tanto que ela mal conseguia segurar o telefone. À sua volta, os colegas de trabalho já começavam a observar e comentar, agora sem disfarçar, o nervosismo na fala de Ana Paula que, discutia exaltada com despreparados conselheiros tutelares e desqualificados agentes da assistência social de sua cidade.
― Ana, preciso que desça lá no...... e pegue....... e faça.... e resgate....... e pesquise..... e termine.....pra ontem!
A estagiária obedece à chefe. Desce, pega, faz, pesquisa, termina... E Daniela se apaga de sua mente...
* Este texto corresponde ao capítulo 11 do livro-reportagem "Longe de Casa, a Urgente Realidade do Acolhimento Familiar e Institucional no Estado de São Paulo", um projeto experimental da disciplina Planejamento em Projetos (PLAPRO), do 4º ano de Jornalismo da USJT, desenvolvido durante o ano de 2010.
MARIANA CARDOSO
Frio.
Uhhhhhh......vvvvvvvvv.......
O vento gélido corta o rosto. O céu cinzento ludibria desavisados que chegam a confundir dia e noite. Mais uma manhã de inverno rigoroso na capital paulista.
Encapuzados em seus longos cachecóis, gorros, fartas jaquetas, pesados casacos, galochas e botas de cano alto, os pedestres, tomados pela urgência do dia-a-dia na megalópole, definitivamente não olham um palmo à frente do que esteja fora de seu rotineiro, único e soberano caminho. Sequer percebem... a vida a sua volta.
Transeuntes sobem apressadamente as escadas, descem como se corressem em direção à linha de chegada da corrida mais importante de suas vidas. É só o ônibus, por um segundo se pode perdê-lo na saída sul do Terminal Rodoviário Barra Funda.
Acompanhando a multidão que desliza em massa pela escadaria que dobra duas vezes em “L”, Ana Paula segue em direção ao trabalho. De repente, para. E fica bem no meio do povo que quase a derruba, nela esbarrando.
― Sai da frente!
Meu Deus! Não posso continuar, seguir... Como? Não pode ser? Será que eu vi bem? O que eu faço? Volto? Mas pra falar o quê? Eu não posso fazer nada mesmo... Não agüento olhar...é, isso mesmo, melhor não olhar... Esqueça, já foi... passou... Estou atrasada, tenho horário, compromisso... Minha chefe me mata! Não é minha culpa, nem minha responsabilidade...Sinto tanto...Ah...mas infelizmente... é, não dá....
Ana Paula se trai. Vira-se e começa a subir lentamente os degraus, retornando àquela figura à qual seus olhos saltaram ligeiramente.
Mas o que eu vou dizer? Falo alguma coisa? Meu Deus! Meu Deus!
Abaixa-se até a altura dela e, agachada, diz:
― Por que você está aqui?
Trajava roupas próprias para o calor desfrutado num clube, numa represa. Verde limão era a cor do top e do shorts que vestia. As sandálias cor de rosa, que indicavam o crescimento dos pés sobrando uns dois dedos para fora do calçado, contrastavam com a blusa feita de uma lã rala, bastante gasta e um pouco suja, velha, grande demais para seu corpo franzino. Sobrava nos braços finos e chegava até os joelhos, quando sentada, Daniela puxava-a para proteger as pernas do clima que a castigava. Era uma menina. Só uma menina.
― Tô vendendo chiclete - Em tom baixo,envergonhado, amedrontado.
A pequena caixinha, com um teco de papel mal colado com durex, que dizia R$1,00, continha embalagens verdes com dez unidades cada e repousava no chão de mármore, escuro pela sujeira, congelante, o mesmo em que se abrigava a pequena criança.
Retirada ao cantinho de um tipo de plataforma que separa um lance da escada do outro, a pele nem branca nem negra da garota não deixa esquecer a herança da desigualdade que anos de escravidão no país impuseram à população, 3, 2 milhões de pardos, na maioria pobre. A franja mal cortada, que dividia numa linha um tanto torta o meio da testa, dava uma amostra dos cabelos, que presos num rabo de cavalo, recaiam sobre as costas encurvadas.
Uma moça para e, com a face moribunda, pergunta quanto é o chiclete. Tira uma nota de dois e leva duas cartelas. Ana Paula se acomoda em cima da bota de salto fino, de cócoras e arrisca novamente:
― Cadê sua mãe?
― Não tenho mãe.
O baque quase a faz desequilibrar-se de sua posição, já incômoda.
― E você mora com quem?
― Com meu pai
― Cadê ele?
―Trabalhando.
― Quantos anos você tem?
― Dez.
A jovem de 22 anos, mesmo achando as respostas coerentes, exceto, é claro, a idade - a garota não aparentava ter mais do que oito anos - tenta algo mais imediato.
― Você tá com fome?
A cabeça que balança carente para cima e para baixo, movimentando o pescoço num gesto afirmativo confirma o que, àquela altura já era previsível para Ana Paula. Abre a bolsa, tira um saquinho de mini pães de queijo recém comprados no terminal e os oferece à Daniela, que os devora velozmente. O coração quase aparente do lado de fora do peito, haja vista as tão fortes batidas, a angustia ainda mais. Ajeita-se e continua:
― Você não pode ficar aqui, sabia? É perigoso, você é menina, alguém pode te fazer mau. Diz pro seu pai que você tem que ir pra escola, que não pode ficar aqui.
Os ombros que sobem e descem num rápido movimento, sem ânimo e com quase força alguma, travam um silêncio. Vira a cabeça para o lado, os olhos inundados não deixam cair uma gota, parecem ser treinados, adestrados para não transbordar. Daniela não chora, apenas se retrai.
Ana Paula se envergonha por estar vestindo tantos acessórios para se proteger do frio. Olha para Daniela. Olha para si. Não pensa. Tira uma das blusas, a cacharel preta de lã.
― Pega, Daniela. Anda, tira essa sua blusa e põe essa por baixo. Agora deixa eu fechar a sua.
Sobe o zíper.
Desnorteada, Ana Paula não consegue entender de onde extraiu forças para fazer tudo aquilo, que não sabia bem o que era. Apenas sentiu que não conseguia mais.
―Toma cuidado, tá bom? E vai embora pra sua casa.
Hã... Inútil...
Já em pé, pronuncia um tchau embargado, agora olhando em direção ao mundo para fora do qual havia se transportado durante anos luz... É, na verdade foram minutos.
Senhor, fica com ela!!!!!!!!!!!
Toctoctoc – Continua a descer os degraus.
Não posso deixar que meus olhos se sequem
Em direção ao ônibus que a deixa na porta do trabalho, Ana Paula luta para conter a explosão de sentimentos que afloram dentro do peito. As pessoas somem ao redor. Aqueles que trombam com seu corpo desgovernado parecem apenas vultos. Com dificuldade sobe os três degraus do micro ônibus e ainda na catraca, desaba.
― Hummmmmmf......hummmmmmffff...
Tenta enxugar com o indicador em movimentos laterais as descontroladas lágrimas que caem sobre seu rosto. É impossível conter. Em pé mesmo, no centro de um corredor estreito de um transporte coletivo minúsculo, a jovem choooooooora.
No trabalho, a decepção. Sente mais uma vez a dor, imensurável, flagelar o mais profundo de sua alma.
Tuuuuuuuum, tuuuuuuuuuum, tuuuuuuuuuuuuum, tuuuuuuuuuuuuuuuum. Após chamar, chamar e chamar, finalmente alguém atende ao telefone no Conselho Tutelar da Praça da Sé. Ana Paula conta detalhadamente a situação, mas antes mesmo de terminar é interrompida:
― Você tem que ligar no 3228-5554, não é com a gente.
Em sua mesa do trabalho, já atrasada demais a começar suas atividades, a jovem insiste. Liga no número passado impaciente e grosseiramente e é informada de que o Recolhimento também não é o responsável.
Parece de nada ter adiantado aliviar o choro irreprimível no banheiro assim que pôs os pés na empresa depois de ser atacada por aquele pedaço inconveniente da realidade de seu país. Ali mesmo, sentada sobre a tampa do vaso sanitário, Ana Paula chorou, chorou e chorou. E orou à Deus, como poucas vezes se lembrava de ter clamado à Ele na vida, para que cuidasse daquela menina.
― Senhor........ unf, unf, unf!!!!!!!!!!!!! “Não posso deixar que meus olhos se sequem, preciso chorar, me desesperar...”, canta baixinho, aos soluços, um louvor que traduz seus sentimentos, ajudando-a a aliviar o nó na garganta.
O descaso por parte das autoridades responsáveis transformavam a aflição, a tristeza e a angústia de Ana Paula em indignação.
Não é possível, como assim, não, não é aqui?? Ah não, senhora, liga num sei aonde... Não é com a gente... Aqui não fazemos esse tipo de trabalho...
E a pior de todas as respostas:
― Ahhhhhhhh naaaaaão, senhora, ela não tá abandonada, então! Ela é vendedora, Ahhhhhh!
Por conta de uma caixinha de chicletes uma criança largada na rua assume o cargo de vendedora???????? Meu Deus! Como explicar pra esse imbecil que, então, estamos falando de trabalho infantil????? Será que preciso ensinar à ele seu próprio trabalho, aquilo que é previsto pelo ECA?
― Se é exploração de menor, aí sim, é que vocês precisam investigar, então! Mandar uma equipe de busca atrás da família dela!!!!!!!!
As mãos de Ana Paula tremiam tanto que ela mal conseguia segurar o telefone. À sua volta, os colegas de trabalho já começavam a observar e comentar, agora sem disfarçar, o nervosismo na fala de Ana Paula que, discutia exaltada com despreparados conselheiros tutelares e desqualificados agentes da assistência social de sua cidade.
― Ana, preciso que desça lá no...... e pegue....... e faça.... e resgate....... e pesquise..... e termine.....pra ontem!
A estagiária obedece à chefe. Desce, pega, faz, pesquisa, termina... E Daniela se apaga de sua mente...
* Este texto corresponde ao capítulo 11 do livro-reportagem "Longe de Casa, a Urgente Realidade do Acolhimento Familiar e Institucional no Estado de São Paulo", um projeto experimental da disciplina Planejamento em Projetos (PLAPRO), do 4º ano de Jornalismo da USJT, desenvolvido durante o ano de 2010.
Encanto das cavalgadas atrai novatos e fascina adeptos por todo o país
Dezembro/2010
MARIANA CARDOSO
O sol estrala no horizonte, o vento corta o rosto, o aroma da terra se mistura à vegetação fresca que descortina exuberantes paisagens. As pernas vestidas de calças jeans seguem o embalo do galope, o corpo acompanha o movimento do cavalo como se homem e animal fossem um só. Mistura de esporte e turismo, as cavalgadas já se espalham por todas as regiões do Brasil, atraem novatos e fascinam adeptos.
A prática do esporte se confunde com a origem da raça de marchadores. As mais adequadas para a cavalgada são o manga-larga e o quarto de milha. A raça dos equinos pode ser definida entre outras características pela força, agilidade, docilidade e porte físico. As práticas esportiva e turística se iniciaram quando da domesticação dos cavalos, inicialmente na Europa, África e Ásia.
Ainda que se enquadrem na categoria esporte devido à atividade física que proporcionam, as cavalgadas não pressupõem competitividade. A competição fica reservada aos enduros destinados a praticantes mais experientes, realizadas pela Confederação Brasileira de Hipismo (CBH).
Qualquer pessoa, porém, pode aventurar-se num passeio pelas fazendas históricas do interior de São Paulo, o destino mais adequado aos principiantes. A Escola de Equitação Fazenda Nova, em Mococa, oferece clínicas de cavalgadas, durante as quais o interessado aprende noções básicas ou aperfeiçoa sua técnica, além de desfrutar de comida da fazenda e estadia rústica no local.
As cavalgadas recebem hoje dois tipos de público, segundo um dos fundadores da Associação Brasileira de Turismo Equestre (ABTE), Paulo Junqueira Arantes. “Há aqueles que procuram uma atividade junto à natureza e não necessariamente são apaixonados por cavalo e os que nutrem desde cedo uma verdadeira paixão pelo animal”, explica.
Os passeios, que podem custar uma média de R$ 350 a R$ 500, com direito à hospedagem e alimentação, duram apenas um dia e requerem algumas precauções: o cavaleiro deve usar sempre botas e calças jeans para evitar assaduras e carrapatos, a camisa deve ser leve e é imprescindível o uso do capacete. Aconselha-se levar protetor solar, repelente, comida e água potável, caso não haja na trilha. É importante, também, verificar previamente as condições da excursão. A máquina fotográfica torna-se indispensável, pois o cenário caracteriza-se por sedutoras paisagens. “Trata-se de uma viagem fantástica sob todos os aspectos para os amantes da natureza e do hipismo”, afirma o empresário Carlos Oliveira, após sentir a emoção da cavalgada.
O contato com a natureza e a viagem por lugares inusitados, que atraem diferentes faixas etárias fizeram com que hotéis-fazenda e agências de esportes radicais e ecoturismo ampliassem sua oferta. Os destinos em destaque no Sudeste são Brotas e Juquitiba, em São Paulo, Pouso Alegre em Minas Gerais, e no Centro-Oeste, o Pantanal.
MARIANA CARDOSO
O sol estrala no horizonte, o vento corta o rosto, o aroma da terra se mistura à vegetação fresca que descortina exuberantes paisagens. As pernas vestidas de calças jeans seguem o embalo do galope, o corpo acompanha o movimento do cavalo como se homem e animal fossem um só. Mistura de esporte e turismo, as cavalgadas já se espalham por todas as regiões do Brasil, atraem novatos e fascinam adeptos.
A prática do esporte se confunde com a origem da raça de marchadores. As mais adequadas para a cavalgada são o manga-larga e o quarto de milha. A raça dos equinos pode ser definida entre outras características pela força, agilidade, docilidade e porte físico. As práticas esportiva e turística se iniciaram quando da domesticação dos cavalos, inicialmente na Europa, África e Ásia.
Ainda que se enquadrem na categoria esporte devido à atividade física que proporcionam, as cavalgadas não pressupõem competitividade. A competição fica reservada aos enduros destinados a praticantes mais experientes, realizadas pela Confederação Brasileira de Hipismo (CBH).
Qualquer pessoa, porém, pode aventurar-se num passeio pelas fazendas históricas do interior de São Paulo, o destino mais adequado aos principiantes. A Escola de Equitação Fazenda Nova, em Mococa, oferece clínicas de cavalgadas, durante as quais o interessado aprende noções básicas ou aperfeiçoa sua técnica, além de desfrutar de comida da fazenda e estadia rústica no local.
As cavalgadas recebem hoje dois tipos de público, segundo um dos fundadores da Associação Brasileira de Turismo Equestre (ABTE), Paulo Junqueira Arantes. “Há aqueles que procuram uma atividade junto à natureza e não necessariamente são apaixonados por cavalo e os que nutrem desde cedo uma verdadeira paixão pelo animal”, explica.
Os passeios, que podem custar uma média de R$ 350 a R$ 500, com direito à hospedagem e alimentação, duram apenas um dia e requerem algumas precauções: o cavaleiro deve usar sempre botas e calças jeans para evitar assaduras e carrapatos, a camisa deve ser leve e é imprescindível o uso do capacete. Aconselha-se levar protetor solar, repelente, comida e água potável, caso não haja na trilha. É importante, também, verificar previamente as condições da excursão. A máquina fotográfica torna-se indispensável, pois o cenário caracteriza-se por sedutoras paisagens. “Trata-se de uma viagem fantástica sob todos os aspectos para os amantes da natureza e do hipismo”, afirma o empresário Carlos Oliveira, após sentir a emoção da cavalgada.
O contato com a natureza e a viagem por lugares inusitados, que atraem diferentes faixas etárias fizeram com que hotéis-fazenda e agências de esportes radicais e ecoturismo ampliassem sua oferta. Os destinos em destaque no Sudeste são Brotas e Juquitiba, em São Paulo, Pouso Alegre em Minas Gerais, e no Centro-Oeste, o Pantanal.
* Este texto foi publicado no Jornal Expressão, número 20, produzido pelos alunos do 4MCSNJO, quarto ano de Jornalismo da USJT.
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