MARIANA CARDOSO
Está tudo preparado. Os médicos usam pijamas cirúrgicos na cor azul, aventais, gorros, máscaras, propés e luvas, tudo devidamente esterilizado. As enfermeiras, igualmente trajadas, auxiliam com os últimos preparativos. A gestante deitada na mesa de cirurgia, consciente, não esconde a ansiedade. Sorri. O marido, fardado com todo o vestuário próprio para acompanhar a operação, está certamente mais ansioso do que a futura mamãe.
Da janela, que permite aos familiares e amigos assistirem ao parto, é retirada a proteção que a cobria, e as sete pessoas coladas ao vidro sentem o coração pulsar. Irmã, a sobrinha e o noivo da sobrinha compõem a torcida do lado da grávida. A mãe e o tio integram o time do marido. Um casal, estando a esposa de sete meses e meio, representa os amigos em comum. A mãe da gestante, apesar do desejo e da angústia, opta por não assistir à cesariana e aguarda na sala ao lado. O cunhado, também prefere não ver, encosta as costas e a cabeça na parede e, de braços cruzados, cansado do trabalho, cochila sentado em garbosas, porém finas, almofadas pretas revestidas de courino sobre uma base de madeira que formam uma espécie de sofá em outra sala de espera. O futuro vovô, já coruja, espia pelo vidro a todo momento, mesmo que o orientem para preservá-lo a não olhar nos momentos que impressionam mais. As mãos inquietas e os curtos passos perdidos que quase marcam um círculo no chão, porém, não escondem o anseio.
- Não olha agora, vô!
Após 39 semanas de uma espera conjunta, chega o momento. A cirurgia está marcada para duas e meia da tarde, com internação prevista para o meio-dia. Mas, na hora de sair, desajeitada, com uma barriga imensa, Flavia começa a se sentir mal, iniciam-se as contrações, que lhe parecem uma forma de cólica intestinal, só que de intensidade fora do convencional, espaçando-se a cada sete minutos. A dor toma conta da barriga toda, impossível saber o ponto exato em que se sente. Forte, tão forte, que enfraquece braços e pernas e gera náusea, uma gastura.
No carro acompanhada da irmã mais velha, da sobrinha e do esposo, que parece ter esquecido o caminho que faz todos os dias, rumam ao número 383 da Alameda Joaquim Eugênio de Lima, travessa da avenida Paulista, centro financeiro de São Paulo, onde localiza-se o Pro-Matre. No caminho da maternidade, a expectativa invade o veículo, que se enche de um turbilhão de sentimentos: apreensão, amor, ansiedade, um carinho enorme... As mãos das irmãs se tocam repousando sobre o encosto de cabeça do banco do motorista. A espera que se arrasta no tempo é constatadamente maior do que a real contagem dos segundos. O suor que escorre irregularmente da palma das mãos da sobrinha autentica a delonga.
No hospital algumas mães aguardam para passar pela triagem, ser internadas ou entrar no apartamento que lhes fora reservado. No pronto-atendimento, separado em três ambientes, há sanitários masculino e feminino, limpos, espaçosos, com sabonete e papel; máquina para consumo de alimentos rápidos, que funciona com notas e moedas; filtro com água gelada; salas e recepção para agilizar a prestação dos serviços. As poltronas dispostas no local, que exibem elegantemente assentos almofadados, fazem gestantes e acompanhantes afundar numa fofura envolta em couro bege.
Atentos, os médicos trabalham, e nem mesmo a inacreditável tranqüilidade do esposo ao tirar fotos pode desconcentrá-los. Flávia olha para o vidro e, com o corpo dormente do estômago para baixo devido à anestesia aplicada há pouco, reconhece a família tão presente, triunfante para receber Manuela.
A gestante detecta apenas uma pressão na região abdominal, mas não sabe ao certo o que está acontecendo. Sente algo diferente, a pressão aumenta na boca do estômago como um desentupidor de pia ao ser pressionado contra o alvo e puxado em seguida. A barriga murcha. Usando o indicador e o polegar, apoiada na palma de sua mão, doutor Mauro retira a cabeça, tão pequena, coberta pelo sangue que deixa o cabelo emplastado. A torcida vibra.
― Hôooooooooooo!
O obstetra extrai o corpo de 48 centímetros, 3,750 kg e alcança o clímax na platéia:
― Haaaaaaaaaaaaa!
― Ai meu Deus!
― Nasceu!
― Graças a Deus!
― Que linda!
― Obrigada, Senhor!
― Hummmmmm!
― Hunf, hunf...
E Manuela responde:
― Huuum... Hunhéééééééééééé!
O êxtase inunda Flávia.
Meu Deus! É de verdade mesmo? Será que é ela? Minha filha? Minha? Mas parece uma boneca! Saiu de mim? ...ou será que o doutor pegou na prateleira? Parece com quem? Não parece comigo... com o pai? Eu... Eu...
― Hunhéééééééééééé! Hunhéééééééééééé! Hunhéééééééééééé!
A enfermeira apresenta a recém nascida à mamãe, encosta o seu rostinho no de Flavia e ela, simplesmente, se cala.
― Ah... (suspiro)
Após três horas no centro cirúrgico, como é de praxe depois de uma cesariana, Flavia chega ao quarto 470, o último do corredor. Familiares e amigos a recebem, e logo chega a Manuela trazida pela enfermeira. Vê a filha chegando ao quarto, envolta em seu macacão de plush branco, reservado especialmente para a ocasião, começa a chorar e escuta desatenta a profissional, que lhe passa orientações enquanto confere o código de barras na pulseira de mãe e filha por meio de um aparelho digital. A emoção é imensurável, a mais nova mamãe não para de pensar em sua bebê, ali, tão perto, tão linda. Recebe-a em seus braços, a pele lisinha e rosa, os olhos já abertos. Os dedos da mamãe percorrem suavemente pela primeira vez sua testa e bochecha, os olhos fixos não desgrudam daquele pedaço de vida, que acabara de chegar, tranqüila, “boazinha”, segundo o esposo, como um presente divino.
Passados os três dias de internação, em que as profissionais da saúde prestaram todo o apoio necessário à recém-operada, ao marido, e à neném - banho, troca de fraldas, alimentação, amamentação, higienização - a família volta para casa, onde continuam os mimos, carícias e longas horas de atenção dispensadas à nova vida que passou a integrar o núcleo familiar.
― humhumhumm, humhumhumm... humhumhúmhúm, umhumhummmmm......... Canta Flávia envolvendo ternamente sua filha nos braços, num gesto, simplesmente, maternal.
À procura de um colo
A cesta arredondada de vime repousa em cima do pequeno móvel de cabeceira repleta de expectativas e produtos infantis. Óleo para o corpo, xampu, sabonete, algodão, talco, cotonete e chupeta.
Rafael tem quase tudo.
No guarda roupas de madeira, na parede ao lado da porta, macacões pendurados um em cada cabide, exalando cheiro de novo. Os mijões e bodies dobrados logo abaixo são dispostos em cima um do outro. Cobertores, fraudas de pano e descartáveis somam-se à lista de pertences.
Carinho, até que tem...
O corpanzil desajeitado e mimoso de Nanci, mãe social do Aldeias Infantis SOS Brasil, se aconchega na estreita cama de solteiro ao lado do pequeno de 30 dias de vida, enrolado num coeiro em forma de envelope, envolto numa manta de soft. A mulher gorda, de feição doce e sorriso cansado, acalenta o bebê ao qual recebeu, inesperadamente, na casa de número 09 de uma instituição de acolhimento familiar na zona sul de São Paulo. Mas embora os braços abertos, Nanci não consegue se conformar.
Como ela teve coragem de entregá-lo, simplesmente abrir mão??? Meu Deus! Qual a explicação? Será que alguma coisa justifica? Onde estará esta moça agora, hein? Deus é que sabe...
Destino, história, raiz, difícil dizer...
Nascido em 19 de junho de 2010, na capital paulista, Rafael chegou a casa lar, assim que teve alta da maternidade. Hã, chegou não, melhor, fora levado pelo coordenador da organização disponível para recebê-lo, um estranho completo.
A afeição que enchia de fantasia o quarto do bebê recém-chegado se esvazia com as mãos ternas de Nanci agora distantes. Transferida de Rio Bonito para a unidade de Poá, a atriz que encenava o papel maternal, é obrigada a deixar Rafael.
Mesmo sabendo que assim como em diversas outras instituições de acolhimento familiar ou institucional há no Aldeias um elenco inteiro, Nanci não viaja sossegada.
Quais integrantes contracenarão na novela de Rafael? Por quanto tempo? Mas e... e depois??? Em qual das casas irá morar? Até quando? Como? Hã, não tenho como saber... Posso ligar, perguntar, mandar carta... besteira! Que nada, nem vai lembrar de mim... Ah ...
Solta a cabeça sobre o pescoço que se curva para baixo. Fecha os olhos lentamente. Abre-os. Respira fundo. Suspira:
― Não sei qual será o seu destino.
* Este texto corresponde ao capítulo 1 do livro-reportagem "Longe de Casa, a Urgente Realidade do Acolhimento Familiar e Institucional no Estado de São Paulo", um projeto experimental da disciplina Planejamento em Projetos (PLAPRO), do 4º ano de Jornalismo da USJT, desenvolvido durante o ano de 2010.
Que lindo Mari..^^
ResponderExcluirparabééééééns..... TENHO ORGULHO de ter uma PRIMA JORNALISTA...
bjaum TE AMO
Obrigado, Bi!!!!=)
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