MARIANA CARDOSO
― Hâaaaaaaaaa, hâhâ! Hunf, hunf!!
Aquele choro... e um grito ecoou um sopro sufocado:
― Mãaaaaaaaaaaaaaaae!
Em poucos minutos a agressividade de Otávio se esfacelou num choro longo e confuso.
Por que ao fim do dia ninguém vem aqui me buscar? Me visitar? Quando virão? ...Virão?
Na Casa de Amparo Tia Marly, Otávio toma café da manhã, almoça, janta, faz a lição, aprende, brinca, toma banho, dorme. E dorme todo dia!
Junto às outras dezesseis crianças, incluindo Carla e Juliana, as mais novas, com quatro meses de vida, o garoto de pele morena, cabelo batido, bochechas gordas e comportamento impulsivo recepciona desconfiado à todos que visitam o lar que abriga crianças de zero a oito anos em situação de risco pessoal e social. Como duas grandes bolas de gude arremessadas rapidamente durante uma partida, os olhos pretos de Otávio percorrem as visitantes, observando o tamanho, a idade, o vestuário e a atitude das visitas que passam pelo cumprido corredor que liga a sala de visitas à lavanderia. Com as mãos escondidas atrás das costas e a cabeça encostada na parede, Otavio examina de “rabo de olho” duas jovens que foram passar algumas horas com as crianças do local.
As visitantes voltam para a sala, mas um berro ressoa por todo andar superior da casa:
― Nãaaaaaaaaaaaaaaaao!
E na seqüência:
― Me dá!
― É meu!
― Tira a mão!
É o suficiente para que uma das sempre atentas educadoras se volte para os meninos, primos, na verdade.
― O que houv...?
É interrompida por um turbilhão de justificativas que são cuspidas ao mesmo tempo:
― Ele me bateu!
― Eu bati nele porque ele me bateu primeiro.
A carência de menino abandonado pela família, antes expressada pela tentativa reprimida de desferir uma pancada com um brinquedo no amigo, transbordou num arranhão que marcou o rosto de Maicon.
As voluntárias, que freqüentam o local normalmente uma vez por semana, e permanecem na sala de visitas por duas ou mais horas, embora dispostas, não demonstram entender o comportamento de Otávio. As educadoras, no entanto, que trabalham em turnos de três por um, experimentam o convívio mais estreito com as crianças acolhidas e debruçam um olhar aprofundado, explicam:
― Só resolve com a tia Marly!
Marly Correa do Nascimento, uma entre os 17 fundadores da casa de amparo, foi homenageada com o nome da instituição, pois após trabalhar dez anos no abrigo São João Batista, assistiu de perto ele ser fechado quando do falecimento de seu dirigente. O fato suscitou-lhe a ideia de dar prosseguimento à política de acolhimento institucional num novo espaço.
O que era um desejo transformou-se num ambiente familiar, cheio de carinho e desenhos coloridos pelas paredes, que hoje oferece a possibilidade de um desenvolvimento integral e um delicioso aconchego para o Otávio, a Juliana, a Carla, a Tainá, a Rafaela, a Duda, o Paulo, a Bruna, o Ícaro, o Wendel, a Janaina, a Tatiana, o Lucas, a Eduarda, a Ana Paula, o Mateus e o Felipe, que diferentemente das outras milhares de crianças espalhadas pelas ruas do país ou inseridas em famílias desestruturadas encontram na casa Tia Marly uma referência familiar. Estão seguros contra os maus tratos, a fome, a carência e a violência de toda natureza, que levam à vulnerabilidade social.
Um lugar para chamar de lar
― Tiiiiiiiiiia!
― É meeeeeeu!
― Esperaaaa!
― Eu queroooo!
― Há, Há, Háaaaaa!
A gritaria de meninos e meninas enche de alegria o sobrado que, de fora, não revela os seus mais de 276 metros quadrados. Preenchidos de beliches, os dois quartos, assim como os dois banheiros, que contam com quatro vasos sanitários individualizados e um chuveiro cada, são separados: um para os meninos e outro para as meninas. Os garotos menores até podem tomar banho no banheiro feminino, os maiores já devem respeitar a regra da divisão, como muitas outras que são seguidas na casa.
É no berçário que pode ser observado através do vidro que toma grande parte da parede do corredor, onde além dos quatros berços, há um guarda-roupa de alvenaria sem portas até o teto, repleto de peças infantis, que as bebês, Carla e Juliana, passam a maior parte do tempo.
Já na sala de estar, ainda no andar de cima, revestida de carpete para o conforto da garotada, Janaiana se diverte correndo e berrando no meio dos visitantes; Rafaela sobe no carrinho de brinquedo para alcançar a estante; Wendel pula de um sofá para o outro. Na televisão, clipes musicais infantis prendem a atenção de alguns enquanto outros espalham-se nos colos das jovens visitas, penduram no pescoço ou lhes mexem nos longos cabelos.
Na parte externa da casa, no final de uma rampa que começa logo após o portão de entrada, o escorregador vazio e as balanças sem movimento no parque molhado pela chuva, ficam tristes nos dias de frio. Quando o clima está propício e, principalmente, nas férias escolares, meninas e meninos fazem estripulias na piscina de bolinhas, sobem, descem, sobem, descem, sobem e descem pelo escorregador da casa de plástico e dirigem pra lá e pra cá, de um lado para o outro o carro que tem volante e até buzina:
― Biiiiiiiiiii! Bi, bi!!!! Brum, bruuuuuuuuuum...
Entre esbarrões no meio da correria, abraços, beijos e a voz das voluntárias misturada à agitação das crianças, a diversão adentra a tarde:
― Desce daí já! Cuidado! Não, assim não pode! Devagar!
Além dos momentos livres de lazer, na Casa de Amparo Tia Marly acontecem também as atividades direcionadas: lição de casa, reforço escolar e brincadeiras lúdicas, além dos acompanhamentos médico, psicológico e fonoaudiológicos.
Chega a hora esperada para alguns, que devoram o lanchinho todo, e amarga para outros pequenos que relutam a limpar o prato. Mesmo em dia de visita, calçar o sapato e descer da sala para a cozinha significa que é hora do café da tarde.
Na lavanderia a “tia da limpeza” bate as roupas usadas na máquina de lavar e torce os panos sujos após a higienização dos banheiros, bem cuidados e adaptados ao tamanho da criançada. E nada de descuido, a longa escada, que dobra em “L” para dar acesso aos cômodos administrativos e à entrada e saída do lar, está sempre protegida por 80 centímetros de um portão branco, reforçado por um nó feito com uma frauda de pano na trava. Afinal, alguns espertinhos já descobriram como abrí-lo.
Tia Marlene enrola Tainá na toalha após o banho do fim da tarde. Ergue-a até conseguir colocar a menina de dois anos, gênio forte e corpo franzino, em cima do trocador. Deita-a e enxuga-a. Com uma mão segura a criança, com a outra, esticando bem o braço, abre a porta do armário. As fraudas fartas, a pomada para assaduras e creme para pentear aproveitados até o finalzinho, o talco, o sabonete e o lenço umedecido só enchem as prateleiras do armário bem limpo de aço, que fica no banheiro das meninas, porque ainda existem pessoas capazes de se sensibilizar com as necessidades dessas crianças, segundo as “tias” do local:
― É tudo doação - explica tia Marlene penteando os cabelos molhados da garota risonha e inquieta - quando está acabando a tia Marly já manda e-mail e pede colaboração!
A ajuda vem também em forma de calçados, roupas, brinquedos, livros, jornais, dedicação, tempo, prestatividade, solidariedade e boa vontade. No bazar, as funcionárias, que não trabalham simplesmente, mas se entregam de corpo e alma ao abrigo, organizam os artigos para a venda, que arrecada fundos para a realização do sonho comum, a compra da casa alugada em que funciona o lar daqueles abandonados que foram acolhidos. É... abandonados, sim, mas acolhidos, no sentido mais fiel da palavra: protegidos. Refugiados da dor, da angústia, do medo, da falta, do descaso.
Tia, não sou uma estatística!
Muito longe de ser um número, quando chegam ao abrigo da Tia Marly, os pequenos rejeitados ou retirados da família de origem, natural (pai e mãe) ou extensa (parentes próximos que guardam relação de afinidade e afetividade) são percebidos como serezinhos humanos únicos, que têm particularidades, e estas são levadas em consideração, respeitadas:
― Aqui não é como em muitos outros abrigos por aí, um depósito de criança.
Roberta, se embasando na experiência em acolhimento de uma década, pronuncia convicta a afirmação que a lembra da infeliz realidade ao redor do país. Atualmente muitos abrigos excedem o total de crianças determinado pela Lei Internacional da Adoção/2009 e não oferecem aos assistidos o tratamento previsto por ela.
Apesar dos seus apenas 30 anos de idade, Roberta já viveu muitas histórias ao lado de tia Marly no Abrigo São João Batista, pelo qual enche os olhos d´agua, lembrando-o com pesar. E ao visitar a casa de Amparo Tia Marly, confere grande credibilidade ao lar:
- É um trabalho sério.
Otávio deixou de ser apenas um dado, ele é tratado agora com o respeito que nunca recebera da família. Vem aprendendo a conversar, como diz a educadora Simone, “olho no olho”, ouve sempre uma voz que impõe regras a serem seguidas, porém sente um colo o aconchegando com imensa ternura, ao experimentar as primeiras trocas afetivas. O seu olhar, que cativa, é quase um convite, e expressa um pedido:
- Me olha!
O choro... Hã... aquele choro é só para não deixar esquecer que ser acolhido é apenas uma feliz conseqüência para quem, um dia, foi abandonado.
Nenhum comentário:
Postar um comentário