Novembro/2010
MARIANA CARDOSO
Quem já não ouviu ou, em algum momento, até pronunciou a célebre frase: “Os desenhos de hoje não são como os de antigamente”? A afirmação, que se tornou praticamente um clichê, não é vazia de significado, pois a mudança realmente ocorreu, em termos de forma e conteúdo, e o modo como se assiste a desenhos animados já não é mais o mesmo.
A neuropsicóloga infantil Ana Olmos explica que o aumento no número de quadros por unidade de tempo altera a percepção e influencia a maneira como o telespectador vê não só desenho, mas outras produções midiáticas. “A hiperestimulação de estrutura e mudança de quadro, além de tornar tudo superficial, gera dificuldade em assistir produções com menor velocidade”, afirma. Ana ainda compara o desenho animado desse perfil a um mosaico em que há a exposição de vários dados ao mesmo tempo, o que impossibilita o processamento da informação em conhecimento.
O representante comercial, Hamilton Rizzo Campos, de 50 anos, que assistia a desenhos como Manda Chuva, Popeye e Mickey Mouse quando criança, diz ser fã dos clássicos até hoje, mas não se agrada dos desenhos atuais. “Não são próprios para crianças, são muito avançados”, responde ao ser questionado sobre Pokemón, Dragon Ball Z e Três Espiãs Demais. Em sua opinião, desenho tem que ser calmo e proporcionar riso e distração. Diz ainda que seus filhos, hoje com 22 e 25 anos, gostam dos mesmos cartoons a que ele assistia.
A especialista vai ao encontro do que pensa Campos sobre os desenhos agitados quando explica que planos mais lentos facilitam
à criança pensar sobre o enredo. Já em termos de conteúdo, ela aponta como mudança a violência sem contexto, banalizada e a introdução de estímulo ao consumo.
à criança pensar sobre o enredo. Já em termos de conteúdo, ela aponta como mudança a violência sem contexto, banalizada e a introdução de estímulo ao consumo.
Para o analista de telecomunicações, Paulo Roberto Vieira, de 26 anos, que ainda mantém o hábito de assistir a cartoons, houve uma troca das características originais, como a piada e a inocência, por briga e morte. Deixa claro que prefere os sucessos antigos, entre eles, os de Hanna Barbera. “Eu adorava Tin Tin, Tom e Jerry e Pica-Pau”, lembra.
A neuropsicóloga cita As Meninas Super-poderosas como típico exemplo da educação para o consumo e afirma que essa substituição de valores ocorre no mesmo ritmo em que a sociedade globalizada se compromete com o capitalismo. Complementa ao dizer que a publicidade é uma grande violência para a criança.
Doutora Ana, no entanto, discorda que toda produção atual seja ruim. “Há, sim, desenhos e outros formatos de programação infantil de excelente qualidade, mas na maioria das vezes não são comprados pelas redes comerciais”, esclarece.
* Este texto foi publicado no Jornal Expressão, número 20, produzido pelos alunos do 4MCSNJO, quarto ano de Jornalismo da USJT.


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