MARIANA CARDOSO
Frio.
Uhhhhhh......vvvvvvvvv.......
O vento gélido corta o rosto. O céu cinzento ludibria desavisados que chegam a confundir dia e noite. Mais uma manhã de inverno rigoroso na capital paulista.
Encapuzados em seus longos cachecóis, gorros, fartas jaquetas, pesados casacos, galochas e botas de cano alto, os pedestres, tomados pela urgência do dia-a-dia na megalópole, definitivamente não olham um palmo à frente do que esteja fora de seu rotineiro, único e soberano caminho. Sequer percebem... a vida a sua volta.
Transeuntes sobem apressadamente as escadas, descem como se corressem em direção à linha de chegada da corrida mais importante de suas vidas. É só o ônibus, por um segundo se pode perdê-lo na saída sul do Terminal Rodoviário Barra Funda.
Acompanhando a multidão que desliza em massa pela escadaria que dobra duas vezes em “L”, Ana Paula segue em direção ao trabalho. De repente, para. E fica bem no meio do povo que quase a derruba, nela esbarrando.
― Sai da frente!
Meu Deus! Não posso continuar, seguir... Como? Não pode ser? Será que eu vi bem? O que eu faço? Volto? Mas pra falar o quê? Eu não posso fazer nada mesmo... Não agüento olhar...é, isso mesmo, melhor não olhar... Esqueça, já foi... passou... Estou atrasada, tenho horário, compromisso... Minha chefe me mata! Não é minha culpa, nem minha responsabilidade...Sinto tanto...Ah...mas infelizmente... é, não dá....
Ana Paula se trai. Vira-se e começa a subir lentamente os degraus, retornando àquela figura à qual seus olhos saltaram ligeiramente.
Mas o que eu vou dizer? Falo alguma coisa? Meu Deus! Meu Deus!
Abaixa-se até a altura dela e, agachada, diz:
― Por que você está aqui?
Trajava roupas próprias para o calor desfrutado num clube, numa represa. Verde limão era a cor do top e do shorts que vestia. As sandálias cor de rosa, que indicavam o crescimento dos pés sobrando uns dois dedos para fora do calçado, contrastavam com a blusa feita de uma lã rala, bastante gasta e um pouco suja, velha, grande demais para seu corpo franzino. Sobrava nos braços finos e chegava até os joelhos, quando sentada, Daniela puxava-a para proteger as pernas do clima que a castigava. Era uma menina. Só uma menina.
― Tô vendendo chiclete - Em tom baixo,envergonhado, amedrontado.
A pequena caixinha, com um teco de papel mal colado com durex, que dizia R$1,00, continha embalagens verdes com dez unidades cada e repousava no chão de mármore, escuro pela sujeira, congelante, o mesmo em que se abrigava a pequena criança.
Retirada ao cantinho de um tipo de plataforma que separa um lance da escada do outro, a pele nem branca nem negra da garota não deixa esquecer a herança da desigualdade que anos de escravidão no país impuseram à população, 3, 2 milhões de pardos, na maioria pobre. A franja mal cortada, que dividia numa linha um tanto torta o meio da testa, dava uma amostra dos cabelos, que presos num rabo de cavalo, recaiam sobre as costas encurvadas.
Uma moça para e, com a face moribunda, pergunta quanto é o chiclete. Tira uma nota de dois e leva duas cartelas. Ana Paula se acomoda em cima da bota de salto fino, de cócoras e arrisca novamente:
― Cadê sua mãe?
― Não tenho mãe.
O baque quase a faz desequilibrar-se de sua posição, já incômoda.
― E você mora com quem?
― Com meu pai
― Cadê ele?
―Trabalhando.
― Quantos anos você tem?
― Dez.
A jovem de 22 anos, mesmo achando as respostas coerentes, exceto, é claro, a idade - a garota não aparentava ter mais do que oito anos - tenta algo mais imediato.
― Você tá com fome?
A cabeça que balança carente para cima e para baixo, movimentando o pescoço num gesto afirmativo confirma o que, àquela altura já era previsível para Ana Paula. Abre a bolsa, tira um saquinho de mini pães de queijo recém comprados no terminal e os oferece à Daniela, que os devora velozmente. O coração quase aparente do lado de fora do peito, haja vista as tão fortes batidas, a angustia ainda mais. Ajeita-se e continua:
― Você não pode ficar aqui, sabia? É perigoso, você é menina, alguém pode te fazer mau. Diz pro seu pai que você tem que ir pra escola, que não pode ficar aqui.
Os ombros que sobem e descem num rápido movimento, sem ânimo e com quase força alguma, travam um silêncio. Vira a cabeça para o lado, os olhos inundados não deixam cair uma gota, parecem ser treinados, adestrados para não transbordar. Daniela não chora, apenas se retrai.
Ana Paula se envergonha por estar vestindo tantos acessórios para se proteger do frio. Olha para Daniela. Olha para si. Não pensa. Tira uma das blusas, a cacharel preta de lã.
― Pega, Daniela. Anda, tira essa sua blusa e põe essa por baixo. Agora deixa eu fechar a sua.
Sobe o zíper.
Desnorteada, Ana Paula não consegue entender de onde extraiu forças para fazer tudo aquilo, que não sabia bem o que era. Apenas sentiu que não conseguia mais.
―Toma cuidado, tá bom? E vai embora pra sua casa.
Hã... Inútil...
Já em pé, pronuncia um tchau embargado, agora olhando em direção ao mundo para fora do qual havia se transportado durante anos luz... É, na verdade foram minutos.
Senhor, fica com ela!!!!!!!!!!!
Toctoctoc – Continua a descer os degraus.
Não posso deixar que meus olhos se sequem
Em direção ao ônibus que a deixa na porta do trabalho, Ana Paula luta para conter a explosão de sentimentos que afloram dentro do peito. As pessoas somem ao redor. Aqueles que trombam com seu corpo desgovernado parecem apenas vultos. Com dificuldade sobe os três degraus do micro ônibus e ainda na catraca, desaba.
― Hummmmmmf......hummmmmmffff...
Tenta enxugar com o indicador em movimentos laterais as descontroladas lágrimas que caem sobre seu rosto. É impossível conter. Em pé mesmo, no centro de um corredor estreito de um transporte coletivo minúsculo, a jovem choooooooora.
No trabalho, a decepção. Sente mais uma vez a dor, imensurável, flagelar o mais profundo de sua alma.
Tuuuuuuuum, tuuuuuuuuuum, tuuuuuuuuuuuuum, tuuuuuuuuuuuuuuuum. Após chamar, chamar e chamar, finalmente alguém atende ao telefone no Conselho Tutelar da Praça da Sé. Ana Paula conta detalhadamente a situação, mas antes mesmo de terminar é interrompida:
― Você tem que ligar no 3228-5554, não é com a gente.
Em sua mesa do trabalho, já atrasada demais a começar suas atividades, a jovem insiste. Liga no número passado impaciente e grosseiramente e é informada de que o Recolhimento também não é o responsável.
Parece de nada ter adiantado aliviar o choro irreprimível no banheiro assim que pôs os pés na empresa depois de ser atacada por aquele pedaço inconveniente da realidade de seu país. Ali mesmo, sentada sobre a tampa do vaso sanitário, Ana Paula chorou, chorou e chorou. E orou à Deus, como poucas vezes se lembrava de ter clamado à Ele na vida, para que cuidasse daquela menina.
― Senhor........ unf, unf, unf!!!!!!!!!!!!! “Não posso deixar que meus olhos se sequem, preciso chorar, me desesperar...”, canta baixinho, aos soluços, um louvor que traduz seus sentimentos, ajudando-a a aliviar o nó na garganta.
O descaso por parte das autoridades responsáveis transformavam a aflição, a tristeza e a angústia de Ana Paula em indignação.
Não é possível, como assim, não, não é aqui?? Ah não, senhora, liga num sei aonde... Não é com a gente... Aqui não fazemos esse tipo de trabalho...
E a pior de todas as respostas:
― Ahhhhhhhh naaaaaão, senhora, ela não tá abandonada, então! Ela é vendedora, Ahhhhhh!
Por conta de uma caixinha de chicletes uma criança largada na rua assume o cargo de vendedora???????? Meu Deus! Como explicar pra esse imbecil que, então, estamos falando de trabalho infantil????? Será que preciso ensinar à ele seu próprio trabalho, aquilo que é previsto pelo ECA?
― Se é exploração de menor, aí sim, é que vocês precisam investigar, então! Mandar uma equipe de busca atrás da família dela!!!!!!!!
As mãos de Ana Paula tremiam tanto que ela mal conseguia segurar o telefone. À sua volta, os colegas de trabalho já começavam a observar e comentar, agora sem disfarçar, o nervosismo na fala de Ana Paula que, discutia exaltada com despreparados conselheiros tutelares e desqualificados agentes da assistência social de sua cidade.
― Ana, preciso que desça lá no...... e pegue....... e faça.... e resgate....... e pesquise..... e termine.....pra ontem!
A estagiária obedece à chefe. Desce, pega, faz, pesquisa, termina... E Daniela se apaga de sua mente...
* Este texto corresponde ao capítulo 11 do livro-reportagem "Longe de Casa, a Urgente Realidade do Acolhimento Familiar e Institucional no Estado de São Paulo", um projeto experimental da disciplina Planejamento em Projetos (PLAPRO), do 4º ano de Jornalismo da USJT, desenvolvido durante o ano de 2010.
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